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	<title>TRADIÇÕES AÇORIANAS</title>
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	<description>TRADIÇÕES AÇORIANAS : EVOLUÇÃO HISTÓRICA</description>
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		<title>O Cancioneiro dos Romeiros de São Miguel</title>
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		<pubDate>Thu, 07 Apr 2016 08:20:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Ponte</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cancioneiro]]></category>

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		<description><![CDATA[Este trabalho de investigação encontra-se publicado na obra “Ao encontro das tradições orais na prática Romeiros de São Miguel.” In Funk, Gabriela, Estudos sobre Património Oral, Ponta Delgada : Câmara Municipal de Ponta Delgada, 2007, pp. 145-170.
O conhecimento transmitido pela oralidade ainda se encontra presente na ilha de São Miguel (Açores) através, por exemplo, de tradições populares de índole religiosa, como os foliões do Espírito Santo, as cavalhadas de São Pedro, bem como os contos, as lendas e as histórias populares, o romanceiro micaelense, entre outras. A prática actual dos Romeiros de São Miguel, que outrora se designava por Visita às casinhas de Nossa Senhora, apresenta também aspectos de tradição oral. Alguns dos cânticos e orações destas romarias continuam a ser transmitidos de velho mestre a aprendiz ou de pai para filho. Neste contexto pretende-se expor algumas das tradições que fazem parte do património oral desta prática ancestral. Foi a partir de algumas horas de convívio com diversos mestres, romeiros e membros do grupo coordenador das romarias que pude reunir um conjunto de sentimentos e de histórias vividas pelos mesmos enquanto peregrinos.
 <a href="http://www.tradicoes-acorianas.com/o-cancioneiro-dos-romeiros-de-sao-miguel/">Ler mais <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Introdução</strong></p>
<p>Antes da invenção da escrita, todo o saber era transmitido oralmente. A memória humana, sobretudo a auditiva, constituía o único recurso de que dispunham as culturas orais para a transmissão de conhecimentos. Neste contexto, a inteligência estava intimamente ligada à memória, daí os mais velhos serem reconhecidos como os mais sábios, por deterem um conhecimento acumulado, advindo da experiência. A figura do “mestre”, isto é, aquele que transmite o seu ofício, também exercia um papel fundamental nestas sociedades orais.</p>
<p>O conhecimento transmitido pela oralidade ainda se encontra presente na ilha de São Miguel (Açores) através, por exemplo, de tradições populares de índole religiosa, como os foliões do Espírito Santo, as cavalhadas de São Pedro, bem como os contos, as lendas e as histórias populares, o romanceiro micaelense, entre outras. A prática actual dos <em>Romeiros de São Miguel</em>, que outrora se designava por <em>Visita às casinhas de Nossa Senhora</em>,apresenta também aspectos de tradição oral.</p>
<p>Podemos definir os Romeiros de São Miguel como grupos ou ranchos de penitentes que, durante uma das semanas da Quaresma, percorrem a pé a ilha de São Miguel, visitando todas as igrejas e ermidas onde se encontra exposta a imagem da Virgem Maria. (cerca de 100 templos). Os ranchos de Romeiros constituem-se por freguesia, possuindo uma dimensão variável.<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftn1">[1]</a></p>
<p>Esta manifestação, que outrora se praticava exclusivamente no mundo oral e rural, foi sofrendo várias alterações com a evolução da sociedade micaelense, nomeadamente a passagem de prática autónoma e popular a movimento de cariz pastoral, na segunda metade do século XX. De facto, em 1962, o primeiro regulamento escrito é publicado pela Diocese de Angra, verificando-se, assim, a transição de um costume oral para uma tradição de escrita, instituída pela Igreja.<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftn2">[2]</a></p>
<p>Não obstante, alguns cânticos e orações continuam a ser transmitidos de velho mestre a aprendiz ou de pai para filho, encontrando-se ainda hoje bem vivos nas romarias.</p>
<p>Neste contexto pretende-se expor algumas das tradições que fazem parte do património oral desta prática ancestral. Foi a partir de algumas horas de convívio com diversos mestres, romeiros e membros do grupo coordenador das romarias que pude reunir um conjunto de sentimentos e de histórias vividas pelos mesmos enquanto peregrinos.<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftn3">[3]</a></p>
<ol>
<li><strong>1. </strong><strong>Os Mestres Romeiros: cantadores e improvisadores do passado</strong></li>
</ol>
<p>Com a introdução de um regulamento escrito em 1962 (actualizado em 1989 e 2003) e a criação de um grupo coordenador, as romarias tornaram-se numa prática organizada e orientada não só pelo mestre de cada rancho, mas também e, sobretudo, pelo chamado grupo coordenador que tem como função “a superintendência geral do Movimento « Romeiros de São Miguel ». Incumbe­?lhe, ainda, a responsabilidade de cooperar na criação e organização dos Ranchos de Romeiros nas Paróquias da Ilha de São Miguel que nunca os tiveram, ou nas situações em que o Rancho não tenha saído nos últimos seis anos, ou provenha da diáspora.” (Diocese de Angra, 2003 : 45) Para além disso, compete ao grupo coordenador ajudar os responsáveis na escolha do acolhimento e pernoitas nas Paróquias e na garantia da Missa diária e respectivo horário<strong>.</strong></p>
<p>Antes da criação deste grupo coordenador, era o mestre quem orientava o rancho e tomava as decisões. Acessível a todos, as suas ordens eram, no entanto, inquestionáveis. O referido poder de decisão e liderança verifica-se ainda nos nossos dias, se bem que partilhado pelo grupo coordenador das romarias. Como testemunha Fernando Maré, o Mestre continua a ser o principal orador do rancho:</p>
<p>Mestre Fernando Maré<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftn4">[4]</a>: (…) Na maior parte dos ranchos, o orador é o mestre, desde que seja uma pessoa que seja capaz. O mestre também para ser obedecido por todos tem que ser uma pessoa também que se imponha naturalmente na liderança, e regra geral o mestre é o principal orador e até que as orações principais é sempre o mestre que as faz, mas nalgum rancho até nem é, têm os seus oradores, uns mais que outros, consoante a capacidade de cada um e o mestre é que vai dizendo quem faz a oração aqui, ou acolá.<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftn5">[5]</a></p>
<p>Se, actualmente, cada rancho é composto por vários membros com funções bem definidas, como o contramestre, o procurador das almas, o lembrador das almas, os guias, o cruzado e os ajudantes, é provável que outrora o mestre fosse o único responsável pelo desempenho de todas estas funções. Com o evoluir das romarias e a necessidade de partilhar várias tarefas ao longo da caminhada, estas figuras acabaram por se destacar no rancho.</p>
<p>Um bom mestre de romeiros caracteriza-se não apenas pela orientação do grupo, mas também pelos seus dotes vocálicos e poéticos. A este respeito, o actual presidente do grupo coordenador dos Romeiros, o senhor Carlos Sousa Melo informa:</p>
<p>Carlos Sousa Melo : Os mestres são recrutados ou eram naquela altura entre cantadores populares porque, conhecendo e de algum modo conheciam, a Bíblia, coisas da Bíblia ligadas a Deus, eram repentistas<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftn6">[6]</a> nas orações que faziam à frente às Igrejas, ermidas …<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftn7">[7]</a></p>
<p>Os mestres eram, até meados do século XX, autênticos poetas e cantadores populares porque provinham de um meio sobretudo rural e popular. Relendo um conjunto de visitas pastorais de algumas paróquias da ilha de São Miguel, verificamos que as romarias se encontram mencionadas, pela primeira vez, nestes textos visitacionais, que datam de 1705 e de 1707. Convém sublinhar que a referência a essas manifestações religiosas surge em todos os livros das visitas feitas nesses anos às diversas paróquias da ilha, o que nos leva a crer que as romarias<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftn8">[8]</a> eram uma prática comum. Actualmente os grupos de romeiros saem também das suas paróquias.</p>
<p>O capítulo do texto visitacional referente a estas romarias começa por descrever as práticas da época, de carácter lúdico e festivo, como os bailes, as pernoitas em casas de romagem e o uso de instrumentos musicais. Segue-se depois o papel regulador da Igreja perante tais práticas, designadas, criticamente, de indecentes e indecorosas, por conduzirem a desordenados apetites e à promiscuidade. Tudo isto se resume em forma de ofensa a Deus, em culpas e pecados graves :</p>
<p>4.°  Por me constar que alguns freguezes desta Parochia fazem Romarias à sim as cazas de Nossa Senhora como as de diversos santos desta ilha, não como motivo alg? de devoção, mas para que com esse meyo se facilitem na entrega de seos desordenados apetites fazendo as ditas Romarias com violas, instromentos, e bailes indecentes e indecorosos em companhia de várias mulheres, as quais pernoitão promiscuamente nas cazas das romagens, e hermidas, de que tudo rezulta grande escândalo e offensa de Deus, crescendo mais esta por converterem aquelle meyo das romarias, que introduzio a devoção pia de alg?s fiéis em culpas, e peccados graves, e para que estes de todo se evitem.</p>
<p>Na segunda parte deste capítulo, o visitador ordenava que o poder masculino – os maridos, pais, irmãos e tios – interviesse no impedimento da participação feminina :</p>
<p>Mando que neh?a mulher de qualquer estado, e condição que seja, faça romarias alg?as, nem os maridos, pais, irmãos, e tios conçintão que suas mulheres, filhas, e sobrinhas, que estejão debaixo de sua subgeição vão à ellas sub pena de quinze tostõis, que pagarão cada vez que contravier à este capitulo, e havendo alg?a mulher que tenha plena liberdade sem subgeição pagara dez tostois se asim o não observar (&#8230;)</p>
<p>A terceira parte requer que os reverendos leiam as ordens dadas pelo visitador e vigiem os transgressores, para que lhe sejam aplicados os devidos castigos :</p>
<p>(&#8230;) e mando aos Reverendos Parochos leião este capitolo nas estaçois à seos fregueses hua vez cada mes, e em special naquelle tempo proximo em que custumão fazer as ditas romarias, e examinem com todo o cuidado, e vigilancia os que delle forem transgressores, tomando-os a rol que mandarão ao ouvidor do districto para que os castigue, e execute nelles a pena subredita e quando esta não seja sufficiente para remedio desta grande culpa auizarão ao Illustrissimo Senhor Bispo para mandar proceder contra os culpados com maior rigor (&#8230;)</p>
<p>O texto não explicita se a proibição se aplica às romarias ou apenas à participação feminina nesta prática. No entanto, critica os divertimentos, condenando o facto de as referidas manifestações religiosas, introduzidas “por devoção pia”, terem degenerado em instrumento de pecado. O documento termina recomendando meios alternativos de “pagamento de promessas”, como a presença nas missas, a doação de esmolas, a realização de jejuns e a responsabilização dos párocos pela eventual falta de cumprimento das determinações do capítulo:</p>
<p>(&#8230;) e achando algua pessoa tem feito voto de romagem lho comutem : advertindo que pelas consequencias perjudiciais que dellas rezultão são mais agradaveis à Deus à do jejum, esmolas, ouvir missas e oraçõis, e havendose os Parochos omissos em executar o disposto neste capitulo se lhes dará em culpa na primeira vizita, como erro de officio.<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftn9">[9]</a></p>
<p>Não obstante a insistência e a ameaça de castigos aos participantes, esta prática terá continuado, visto que ainda numa das visitas de 1743 a questão volta a ser focada com o mesmo vigor<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftn10">[10]</a>.</p>
<p>Deprende-se do texto que as penitências e procissões espontâneas efectuadas durante as várias crises sísmicas que ocorreram na ilha são o resultado das romarias feitas às casinhas de Nossa Senhora e que estas evoluíram ao longo do tempo, tornando-se, no século XVIII, uma manifestação de cariz popular e possuindo formas e características festivas e lúdicas, como a dança e a presença de instrumentos musicais. É provável que a proibição desta prática tenha levado ao desaparecimento dos aspectos festivos, sexuais e lúdicos criticados pela Igreja, ficando só a tradição de visitar, em penitência, as casas de Nossa Senhora.</p>
<p>O que acabamos de expor pode explicar, em parte, o porquê do carácter popular que persistiu nas romarias. De igual modo, este poderá ser um dos argumentos justificativos da hipótese de os mestres serem inicialmente cantadores e improvisadores populares.</p>
<p>As romarias de hoje tendem a seguir uma regra muito mais escriptocêntrica, que evoluiu com as tecnologias da comunicação. De uma cultura puramente oral, passou a ser manuscrita quando o velho mestre começou a ditar as formas tradicionais da romaria e dos seus cânticos. A “normalização” foi-se afirmando, com a publicação e divulgação dos regulamentos escritos, com o conhecido “santinho” em papel oferecido a cada família que acolhe o romeiro, e também com o livro de cânticos, sobretudo litúrgicos, que o romeiro transporta consigo. Ainda encontramos mestres que nos contam como era o romeiro tradicional, as romarias de outrora, histórias que lhes foram transmitidas pelos seus pais e avós. Os cânticos e as orações tradicionais das romarias fazem parte deste repertório oral que vamos recontar nas linhas seguintes.</p>
<p><strong>2. As orações das romarias: tradição de uma transmissão oral</strong></p>
<p>A visita às casinhas de Nossa Senhora implicava um cântico ou uma oração em cada uma das ermidas visitadas, como forma de exaltar a presença e a penitência dos romeiros. Neste contexto, o mestre era e ainda é a figura central, o porta-voz do grupo, um cantador/orador que, pelo acto da palavra cantada, com a intenção de querer agradar ou agradecer a Deus visa a obtenção de um favor ou de uma recompensa, no fundo, uma Graça divina. A autenticidade destes cânticos encontrava-se sobretudo na capacidade de improvisação e também, como diz o Mestre Adriano Couto, no dom de “versar”, de cantar:</p>
<p>Mestre Adriano Couto : As orações todas, os cânticos já foi tudo feito já assim por cantadores, a gente ali chegávamos ao Salvador do Mundo é claro aquilo não é feito por mim nem por meu pai foi, era aqui dos Arrifes. O Daniel da Arruda que está para o Brasil, este homem é que tinha o dom de versar muito e ele ali como era amigo com meu pai ele ali fez-lhe as quadras ao Salvador do mundo quer dizer (e canta):</p>
<p>Ao Céu nos quis enviar</p>
<p>O nosso Adão segundo</p>
<p>Quem te não há-de louvar</p>
<p>Senhor Salvador do Mundo</p>
<p>e pega por ali abaixo sempre a cantar (…) quer dizer são tudo feitas, já se sabe que nem todos têm o dom, pode ser um grande doutor mas não tem o dom de improvisar<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftn11">[11]</a></p>
<p>Para além do mestre, outro romeiro pode versejar ou cantar, se tiver este dom. A propósito, o mestre Adriano conta:</p>
<p>Mestre Adriano Couto: Havia oradores, sempre houve rapazes, homens que ajudam, sabem e que aprendem, embora às vezes há uns que têm mais dom do que outros, (…) porque é claro o dom nasce com a pessoa, às vezes a gente quer ter mas não chega a força, (…) mas há aquele que tem aquele dom de cantar e de decorar, porque aquilo, o próprio ali também é ter o dom do decore porque há muitos que lêem muito mas no fim decoraram pouco e depois é claro quando chegar a um sitio daqueles que a igreja esteja com muita gente e coisa. Também houve alguns padres que se chegaram a meter nisto também qual era a razão que o orador não tinha um livro não levava o livro e ia lendo, ia dizendo e tudo mais, mas é como a gente costuma a dizer uma coisa é ler e outra coisa é cantar, porque se ele tiver cantando com o livro aberto nunca mais se torna uma musica viva e é tal e qual como um padre que for pregar para um púlpito se levar um livro não tem graça aquele sermão, teve lendo, mas se for de cabeça erguida, olhos fitos na santa ou no santo, não quer dizer que ele não tenha de repente ali uns dados para não fugir daqueles momentos que vai falar<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftn12">[12]</a></p>
<p>Como se repetia anualmente a visita às várias ermidas, os cânticos alusivos às mesmas, improvisados ou não, eram, igualmente, repetidos, e deste modo, memorizados e transmitidos. A comparação que o mestre Couto estabelece entre um romeiro que canta de livro aberto e um padre que faz um sermão revela que a autenticidade do cântico só pode existir pela voz do cantador, que transforma este acto em música viva. Porém, a palavra cantada “implica a presença do corpo humano, centro e instrumento psicomotor da improvisação e da memorização, receptor da mensagem, transformado em corpo-memória, detentor/guardião do saber tradicional.” (Lemaire, 2002: 95) Neste sentido, o cantador é considerado “um corpo estilizado numa atitude ritual, rígida, solene, no seu vestimentário convencional.”(Lemaire, 2002: 95) Com a presença de uma comunidade que compartilha o mesmo saber transmitido pelo cantador, o acto da palavra cantada atinge a sua  performance. É por esta razão que na visita a uma ermida ou igreja onde haja um público que vem para ouvir as orações e os cânticos do rancho, o orador/cantador não só canta para agradecer a Deus ou à Virgem mas também para agradar aos ouvintes. Quando o mestre ou o orador acaba de cantar, muitas das pessoas que testemunharam este momento dizem “Que linda canção” ou “Ele canta tão bem” ou ainda “Gostei muito de ouvi-lo cantar”. Não é apenas o tema ou o conteúdo do cântico que conta então, mas também a voz do cantador, o ritmo do cantador, os seus gestos e expressões faciais.</p>
<p>Das orações mais tradicionais há a destacar a chamada “Avé Maria dos Romeiros” cantada. Deste modo, ela tornou-se o distintivo musical da romaria e anúncio da chegada dos romeiros a cada localidade. É o ritmo lento deste canto, o seu carácter rigorosamente monocórdico e pungente, o peso atribuído a certas sílabas, o tom de voz austero e triste, que se perpetua como forma de tradição oral e memória colectiva.</p>
<p>Para além deste cântico tradicional, existe também a oração cantada em verso ou declamada ritmicamente em prosa à chegada a uma ermida ou igreja<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftn13">[13]</a>. Esta oração é composta por vários momentos. Convém sublinhar que as ermidas visitadas pelos romeiros são apenas as que têm invocação a Nossa Senhora, aspecto tradicional das romarias de outrora. As orações diferenciam-se consoante a igreja se é de invocação feminina ou masculina, se tem a porta aberta ou porta fechada. Para esclarecer esses pontos, daremos alguns exemplos:</p>
<p><strong>Oração feita com a ermida ou a igreja fechada</strong></p>
<p>Orador: Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo</p>
<p>Romeiros: Assim como era no princípio, agora e sempre. Amén.</p>
<p>O: Senhora ouvi a nossa oração</p>
<p>R: Chegue até vós o meu clamor</p>
<p>O: Que os anjos vos louvam, milhares e milhares de vezes, Soberana e Clementíssima Senhora, Amén.</p>
<p>O + R: Deus vos salve Maria, Filha de Deus Pai</p>
<p>Deus vos salve Maria, Mãe de Deus Filho</p>
<p>Deus vos salve Maria, Esposa do Espírito Santo</p>
<p>Deus vos salve Maria, Templo Sacrário da Santíssima Trindade. Amén.</p>
<p>Sino em Cruz, eu pecador confesso a Deus &#8230; (rezam o acto de confissão)</p>
<p>Orador:(momento das petições) Exemplo: por intenção de todas as pessoas desta paróquia, principalmente os mais necessitados. Pai­­?Nosso e Avé­?Maria (todos rezam um Pai-Nosso e uma Ave?Maria)</p>
<p>No fim das petições: E ao Espírito Santo, para que nos livre de todos os perigos que não nos podemos livrar, especialmente de fome, fogo, peste, guerras, mortes repentinas, perdições de almas e de corpos, Salvé­ Rainha (todos rezam uma Salvé Rainha)</p>
<p>O: Senhor Deus (repetido 3 vezes)</p>
<p>R: Misericórdia   (repetido 3 vezes)</p>
<p>O: Virgem Mãe de Deus e Mãe Nossa (repetido 3 vezes)</p>
<p>R: Alcançai o vosso amado filho, misericórdia (repetido 3 vezes)</p>
<p>O: Seja para sempre louvada a Sagrada Vida, Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo</p>
<p>R: Seja para sempre louvado com sua e nossa Mãe Maria Santíssima</p>
<p>O: (cantando)</p>
<p>Sois a Virgem de Israel</p>
<p>Por isso naquele dia</p>
<p>O arcanjo São Gabriel</p>
<p>Te chamou Avé Maria (e o rancho parte cantando a tradicional Avé Maria dos Romeiros)</p>
<p><strong>Oração feita com a ermida ou a igreja aberta</strong></p>
<p>Orador: Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo</p>
<p>Romeiros: Assim como era no princípio, agora e sempre. Amén.</p>
<p>O: Senhora ouvi a nossa oração</p>
<p>R: Chegue até vós o meu clamor</p>
<p>O: Que os anjos vos louvam, milhares e milhares de vezes, Soberana e Clementíssima Senhora, Amén.</p>
<p>O + R: Deus vos salve Maria, Filha de Deus Pai</p>
<p>Deus vos salve Maria, Mãe de Deus Filho</p>
<p>Deus vos salve Maria, Esposa do Espírito Santo</p>
<p>Deus vos salve Maria, Templo Sacrário da Santíssima Trindade. Amén.</p>
<p>O: Dai-nos licença Senhora, para que entremos em vossa santíssima morada, e para que vos cantemos e</p>
<p>louvemos com temor e reverência pura e humildade. Amén.<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftn14">[14]</a></p>
<p>Orador:(momento das petições) Exemplo: por intenção de todas as pessoas desta paróquia, principalmente os mais necessitados  Pai Nosso e Avé Maria (todos rezam um Pai­?Nosso e uma Ave­?Maria)</p>
<p>No fim das petições: E ao Espírito Santo, para que nos livre de todos os perigos que não nos podemos livrar, especialmente de fome, fogo, peste, guerras, mortes repentinas, perdições de almas e de corpos, Salvé Rainha (todos rezam uma salvé rainha)</p>
<p>O: Senhor Deus (repetido 3 vezes)</p>
<p>R: Misericórdia   (repetido 3 vezes)</p>
<p>O: Virgem Mãe de Deus e Mãe Nossa (repetido 3 vezes)</p>
<p>R: Alcançai o vosso amado filho, misericórdia (repetido 3 vezes)</p>
<p>O: Seja para sempre louvada a Sagrada Vida, Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo</p>
<p>R: Seja para sempre louvado com sua e nossa Mãe Maria Santíssima</p>
<p>O: (cantando)<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftn15">[15]</a></p>
<p>Sois a Virgem de Israel</p>
<p>Por isso naquele dia</p>
<p>O arcanjo São Gabriel</p>
<p>Te chamou Avé Maria (e o rancho sai da igreja ou ermida cantando a tradicional Avé Maria dos Romeiros)</p>
<p>A partir desses exemplos constatamos que ao longo da oração existem vários momentos a respeitar. O primeiro corresponde ao pedido a Nossa Senhora para ouvir a oração declamada ou cantada pelo Orador; o segundo diz respeito ao reconhecimento dos pecados, pelo acto de confissão; o terceiro é designado como o das petições, por intenções particulares e colectivas; o quarto corresponde ao pedido de misericórdia e ao louvor a Jesus Cristo e, por último, temos o cântico em verso, que permite a transição para a tradicional Avé-Maria cantada dos Romeiros.</p>
<p>A oração feita a uma ermida ou a uma igreja aberta torna-se, de uma maneira geral, muito mais completa e rica, porque introduz outros momentos, como o pedido de licença para entrar e para sair, assim como um maior número de quadras cantadas pelo Orador. É o que se chama cântico de entrada e cântico de saída. Relativamente a estes cânticos existem várias versões realizadas e transmitidas por vários mestres. No que diz respeito ao cântico de entrada, apenas expomos dois exemplos neste artigo:</p>
<p><strong>Oração a Nossa Senhora da Graça</strong><strong><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftn16">[16]</a></strong></p>
<p><strong>I</strong></p>
<p>Oh Virgem Imaculada</p>
<p>Virgem Mãe do redentor</p>
<p>Sede a nossa Advogada</p>
<p>Lá no trono do Senhor</p>
<p><strong>II</strong></p>
<p>Senhora ajudai que a faça</p>
<p>A minha santa oração</p>
<p>Nossa Senhora da Graça</p>
<p>Dai-nos a vossa bênção</p>
<p><strong>III</strong></p>
<p>Estamos em vossa presença</p>
<p>E vos queremos visitarSenhora dai-nos licença</p>
<p>P’ra na Vossa casa entrar</p>
<p><strong>IV</strong></p>
<p>Entrai, entrai pecadores</p>
<p>Por esta porta sagrada</p>
<p>Vamos oferecer flores</p>
<p>À Virgem Imaculada</p>
<p><strong>V</strong></p>
<p>Ó Senhora as nossas flores</p>
<p>São tão poucas na verdade</p>
<p>Orações e algumas dores</p>
<p>E um pouquinho de amizade</p>
<p><strong>VI</strong></p>
<p>Eu vos peço uma bênção</p>
<p>Para esta freguesia</p>
<p>E p’ra todos que aqui estão</p>
<p>Nesta vossa companhia</p>
<p><strong>Oração a São Sebastião</strong><strong><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftn17">[17]</a></strong></p>
<p><strong>I</strong></p>
<p>S. Sebastião dai-nos licença</p>
<p>Auxílio da Vossa Graça</p>
<p>Para que em Vossa presença</p>
<p>A nossa oração se faça</p>
<p><strong>II</strong></p>
<p>Oh meu S. Sebastião</p>
<p>Graças a Vós queremos dar</p>
<p>Vamos fazer a oração</p>
<p>P’ra vos poder venerar</p>
<p><strong>III</strong></p>
<p>Estamos em vossa presença</p>
<p>E vos queremos visitar</p>
<p>São sebastião dai-nos licença</p>
<p>P’ra na vossa casa entrar</p>
<p><strong>IV</strong></p>
<p>Entrai, entrai pecadores</p>
<p>Por este portão sagrado</p>
<p>Vamos oferecer flores</p>
<p>A São Sebastião humanado</p>
<p><strong>V</strong></p>
<p>Abençoado S. Sebastião</p>
<p>Recebe os nossos corações</p>
<p>Recebe a nossa oração</p>
<p>E as nossas petições</p>
<p><strong>VI</strong></p>
<p>S. Sebastião abençoado</p>
<p>Tende de nós compaixão</p>
<p>Fostes um Bravo soldado</p>
<p>Que defendestes a Nação</p>
<p><strong>VII</strong></p>
<p>Pecadores ajoelhai</p>
<p>Aqui neste duro chão</p>
<p>E com fervor rezai</p>
<p>O Acto de Contrição</p>
<p><strong>VII</strong></p>
<p>Pecadores ajoelhai</p>
<p>Aqui neste duro chão</p>
<p>E com fervor rezai</p>
<p>O Acto de Contrição</p>
<p>Estes cânticos são compostos por estrofes de quatro versos<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftn18">[18]</a> de rima cruzada. Convém sublinhar que as quadras são cantadas pelo Orador e repetidas pelos romeiros<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftn19">[19]</a> e que a notação em quadra oculta uma forma de cantar diferente. Na verdade, eles cantam em versos longos, de 15 ou 16 sílabas, repetidos.</p>
<p>Eles cantam assim :</p>
<p>Orador : Oh Virgem Imaculada Virgem Mãe do redentor</p>
<p>Romeiros : Oh Virgem Imaculada Virgem Mãe do redentor</p>
<p>Orador : Sede a nossa Advogada Lá no trono do Senhor</p>
<p>Romeiros : Sede a nossa Advogada Lá no trono do Senhor</p>
<p>Orador : Senhora ajudai que a faça A minha santa oração</p>
<p>Romeiros : Senhora ajudai que a faça A minha santa oração</p>
<p>Orador : Nossa Senhora da Graça Dai-nos a vossa bênção</p>
<p>Romeiros : Nossa Senhora da Graça Dai-nos a vossa bênção</p>
<p>Orador :Estamos em vossa presença E vos queremos visitar</p>
<p>Romeiros : Estamos em vossa presença E vos queremos visitar</p>
<p>Orador : Senhora dai-nos licença P’ra na Vossa casa entrar</p>
<p>Romeiros : Senhora dai-nos licença P’ra na Vossa casa entrar</p>
<p>Orador : Entrai, entrai pecadores Por esta porta sagrada</p>
<p>Romeiros : Entrai, entrai pecadores Por esta porta sagrada</p>
<p>Orador : Vamos oferecer flores À Virgem Imaculada</p>
<p>Romeiros : Vamos oferecer flores À Virgem Imaculada</p>
<p>(e assim sucessivamente)</p>
<p>O primeiro cântico é dedicado a Nossa Senhora da Graça e o segundo, a São Sebastião. A exaltação de um aspecto relacionado com a santa ou o santo é, muitas vezes, realçado, como se pode observar na sexta quadra da oração dedicada a São Sebastião, onde o mesmo é qualificado como um bravo soldado que defendeu a nação. Num meio popular, pouco conhecedor de Hagiografia, esta “defesa da Nação”, pode ser entendida como um “aportuguesamento” de São Sebastião, tornando­?o “um dos nossos”.</p>
<p>Nestes cânticos, pede-se tradicionalmente para entrar e para rezar o acto de contrição. O primeiro pedido é cantado na terceira e quarta quadras, e o segundo, na sétima quadra. Estes momentos são como que encenados, isto é, quando o Orador canta <em>Entrai, entrai pecadores</em>, os romeiros poisam os seus bordões no chão ou na parede e entram na igreja. Seguidamente, os romeiros ajoelham-se e rezam o acto de contrição, ao ouvirem o orador cantar: <em>Pecadores ajoelhai / Aqui neste duro chão / E com fervor rezai / O Acto de Contrição</em>. As restantes quadras (I, II, V e VI) são normalmente da autoria do orador, que muitas vezes as improvisa. Pode acontecer também que o mesmo as faça previamente ou então memorize as que lhe foram transmitidas por outros mestres</p>
<p>A visita termina com o cântico de saída, como o exemplo seguinte ilustra:</p>
<p><strong>I</strong></p>
<p>Já fizemos a oração</p>
<p>Senhora em vossa presença</p>
<p>Já nos quermos ir embora</p>
<p>Senhora dai-nos liçença</p>
<p><strong>II</strong></p>
<p>Senhora dai-nos licença</p>
<p>Que nos quermos ir embora</p>
<p>Venha em nossa companhia</p>
<p>A vossa graça senhora</p>
<p><strong>III</strong></p>
<p>A vossa graça senhora</p>
<p>Vai nossa companhia</p>
<p>Para podermos louvar</p>
<p>Esse teu nome Maria</p>
<p><strong>IV</strong></p>
<p>Ave que vóa mais alto</p>
<p>Quero de noite quero de dia</p>
<p>Na boca dos pecadores</p>
<p>É vóz da Ave-maria</p>
<p><strong>V</strong></p>
<p>Santa Virgem de Israel</p>
<p>Bendito aquele dia</p>
<p>Que Anjo S. Gabriel</p>
<p>Te chamou Ave-Maria<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftn20">[20]</a></p>
<p>Este cântico, também feito em quadra, e cantado em versos longos, permite anunciar a saída do rancho de uma ermida ou igreja. Tal como no cântico de entrada, existem dois momentos tradicionais que devem sempre ser respeitados. O primeiro encontra­?se na primeira quadra, onde se pede licença para sair da igreja. Este momento permite aos romeiros preparem­?se para sair. O segundo encontra-se na última quadra e serve para introduzir o canto da tradicional Avé?Maria dos Romeiros, o que significa que o rancho se põe em marcha.</p>
<p>Estes são apenas alguns dos exemplos mais significativos das orações e cânticos tradicionais das romarias que foram sendo transmitidos até hoje. Outros, como por exemplo, o oferecimento a Deus ou à Virgem<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftn21">[21]</a>, assim como a salva à cruz,<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftn22">[22]</a> fazem parte integrante das orações tradicionais desta prática.</p>
<p>Relativamente ao ritmo e à melodia, podemos considerar que, de maneira geral, o canto das orações tradicionais dos romeiros é lento e monocórdico, com uma acentuação significativa em certas sílabas, sobretudo na última sílaba.</p>
<p>De facto, para cada oração cantada é-lhe dado um ritmo próprio, sendo umas feitas com um tom mais austero e triste, mais “arrastado” que outras. Deste modo, um dos aspectos fundamentais das romarias diz respeito ao tom e ao ritmo do conjunto de cânticos e orações que ainda hoje são reditos e cantados pela voz dos mestres ou oradores. Relativamente aos cânticos apresentados anteriormente, a letra varia, mas a tonalidade e o ritmo da voz permanece igual para cada rancho de romeiros, como nos testemunha o mestre Fernando Maré:</p>
<p>Mestre Fernando Maré: É diferente, a música é a mesma, o tom da Avé­?Maria e o tom desses versos é sempre igual, a música é sempre igual, agora a letra pode variar, o que não varia por exemplo é as salvas, antes de entrar na igreja, a salva que é isso por exemplo Deus vos salve Maria filha de Deus Pai &#8230; ou Seja para sempre louvada a paixao morte … isto também é sempre igual, isto não muda, mas o entrar na igreja cada um tem a sua letra &#8230;<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftn23">[23]</a></p>
<p>E para que esta voz não se perca é necessário continuar a tradição, pois, como sublinha o Senhor Henrique Pimentel, “a letra para não esquecer é preciso estar escrito, mas a toada<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftn24">[24]</a> como é que se pode escrever uma toada? Só a música. Mesmo pela escrita vai-se escrever as palavras, mas não tem toada.”<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftn25">[25]</a> Isto significa que o tom de voz, a melodia e o ritmo destes cânticos só podem ser autênticos se transmitidos oralmente como ele próprio as aprendeu. A sua alteração ou desaparecimento implicará que a prova irrefutável da sua oralidade acabe também por desaparecer com a época que a viu nascer.</p>
<p>Apesar de haver uma continuidade no declamar e no cantar de certas orações, estas tradições tendem a perder-se, como nos conta o mestre Adriano Couto:</p>
<p>Mestre Adriano Couto: As tradicionais estão a perder um bocadinho, estão a perder até que eu já tenho falado muito nisso, porque isso começou e as orações tradicionais eram à virgem, porque os nossos primeiros saíram às casinhas de Nossa Senhora a pedir a Nossa Senhora clemência e a protecção do céu para a terra. É claro que nessa altura a gente pedia por intermédio a Nossa Senhora para que ela pedisse ao seu filho bendito que nos desse aquela graça de nos poder alcançar, a graça da gente ter a protecção e de nos valer naquelas grandes aflições. Aí continuavam as orações à Virgem, depois pegaram a haver o santíssimo e (…) já é do meu tempo (…) a gente dedicaram-se mais ao santíssimo, dedicaram-se porque quando a gente entra costuma-se a dizer : vai cumprimentar o pai e depois vai cumprimentar a mãe. Mas é o que eu digo a estes que já vão continuando : vocês não se esqueçam que se cantarem cânticos à Virgem é natural, não julguem que não é natural, é natural, fazer um oferecimento a Nossa senhora também é muito natural e ela oferece ao seu bendito filho, porque se pegarem só a cantar cânticos da igreja, deixar os cânticos tradicionais ou depois mais logo perde-se, perde a tradição que os nossos antepassados tiveram (…)<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftn26">[26]</a></p>
<p>Torna-se, por isso, necessário manter este <em>corpus</em> de cânticos e orações tradicionais, que apresentam uma estrutura específica com momentos próprios e bem definidos para cada situação. É a notação musical de cada canto que permite reviver, na voz do mestre ou orador, as tradições orais dos nossos antepassados e que fazem desta prática um monumento vivo da memória colectiva.</p>
<p><strong>Conclusão</strong></p>
<p>Após esta breve análise de algumas orações e cânticos tradicionais dos Romeiros de São Miguel, verificamos a importância da oralidade na transmissão, ou mesmo na produção e repetição dos mesmos. Esta oralidade supõe uma toada tradicional e um texto oral que, por definição, é móvel e aberto à improvisação, logo a variantes textuais e poéticas, como se pode constatar no caso das romarias micaelenses. Trata-se, por conseguinte, de romarias e não de uma só romaria, aplicando-se neste contexto o provérbio utilizado pelo mestre Artur Almeida <em>“ cada terra tem o seu uso / cada roca o seu fuso”</em><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftn27"><strong><em>[27]</em></strong></a>.</p>
<p>Não é unicamente a oração ou o cântico composto por vários momentos que se torna fundamental, mas também a voz, o ritmo e a entoação no declamar e no cantar destas orações tradicionais. Deste modo, os cânticos em quadra feitos pelos mestres ou oradores são autênticos poemas orais constituídos apenas pela palavra e pela voz. Zumthor, em <em>La lettre et la voix</em> faz a distinção de <em>obra</em>, <em>texto</em> e <em>poema</em>. Para ele, <em>obra</em> significa “ce qui est poétiquement communiqué, ici et maintenant: texte, sonorités, rythmes, éléments visuels; le terme embrasse la totalité des facteurs de la performance (&#8230;)” (1987:243). Transpondo este conceito para os cânticos e orações tradicionais das romarias, podemos considerar que o texto oral atinge a sua performance quando ritmado e entoado pela voz do orador. Como salienta o  mesmo autor “Le <em>texte</em> est lisible; l’<em>oeuvre</em> fut à la fois audible et visible (&#8230;) Du <em>texte</em>, la voix, en performance, tire l’<em>oeuvre</em>. Elle s’asservit à cette fin, en les fonctionnalisant, tous les éléments aptes à la porter, l’amplifier, à accuser son autorité, son action, son intention persuasive.” (Zumthor, 1987:243). Por estas razões, nas romarias em questão, a toada tradicional e o texto oral adquirem muito mais valor que o texto escrito. A chegada a uma igreja ou a uma ermida implica não só um conjunto de cânticos e orações declamado e cantado por um corpo estilizado, mas também a presença de uma comunidade que, compartilhando o mesmo saber, vem presenciar um “jogo poético” cujo instrumento é a voz do orador. Se, em outras sociedades, a poesia ou a declamação tem lugar numa praça pública, como fazem os poetas populares do Brasil<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftn28">[28]</a>, no caso presente essas manifestações ocorrem em frente às ermidas e igrejas micaelenses. Assim, os cânticos e as orações tradicionais expostos neste artigo exemplificam a oralidade de uma tradição que permite alimentar uma memória ancestral não escrita e que faz parte da cultura popular e religiosa da ilha de São Miguel.</p>
<p><strong>Bibliografia</strong></p>
<p>A.P.I.S. Miguel Arcanjo de Vila Franca do Campo, <em>Livro de Capítulos de Visitas, (1674-1770)</em>, 30/07/1705, fls. 72-73</p>
<p>A.P. de São Jorge, Vila do Nordeste, <em>Livro de Visitas (1705-1811)</em>, 18/09/1705, fl. 68</p>
<p>A.P. de São Pedro, Nordeste, Livro de Visitas (1693-1811), <em>In Variedades Açorianas</em> (série manuscrita), José de TORRES, III : 103-148.</p>
<p>A.P. de Nossa Senhora do Rosário, <em>Livro de Visitas (1600-1743)</em>, 30/06/1707, fls. 102-103.</p>
<p>BURKE Peter, 1992. Religiosidade Popular. <em>In O Mundo como Teatro</em>, Estudos de Antropologia histórica, Difel, Memória e Sociedade, Lisboa, 109-128.</p>
<p>CANTEL Raymond, 2005, <em>La littérature Populaire Brésilienne</em>, Jean-Pierre Clément et Ria Lemaire (éd.), CRLA, Poitiers, 382 p.</p>
<p>CARVALHO, D. Manuel Afonso de, 1962. Regulamento dos Romeiros da Ilha de S. Miguel-Açores. <em>In Boletim Eclesiático dos Açores</em>, Diocese de Angra, 38-47.</p>
<p>COSTA Susana Goulart, 1999, Visitas Pastorais na Paróquia do Faial da Terra: apontamentos para o estudo das religiosidades de Antigo Regime: 1698-1765, <em>In Arquipélago</em>, Revista da Universidade dos Açores, 2<sup>a</sup> série, Universidade dos Açores, Ponta Delgada, III: 65-118.</p>
<p>Diocese de Angra, 2003. <em>Romeiros de São Miguel &#8211; Regulamento</em>. 50 p.</p>
<p>ENES, Maria Fernanda Dinis Teixeira, 1986.<em> </em>Um aspecto da Luta contra o Sincretismo da Cultura Oral, <em>In Revista de História das Ideias</em>, Coimbra, 8: 71-109.</p>
<p>?  1987. <em>As Visitas Pastorais da Matriz de São Sebastião de Ponta Delgada (1674-1739)</em>, Secretaria Regional de Educação e Cultura, Universidade dos Açores, Ponta Delgada,  287 p.</p>
<p>FERREIRA Francisco Melo, 1996. Breves Notas sobre a Tradição. <em>In Manuel Guerreiro (dir.) Revista Lusitana</em>, Ed. Centro de Tradições Populares Portuguesas e Ed. Colibri, Universidade de Lisboa, Lisboa, 15:81-91.</p>
<p>ESCUDEIRO, D. Aurélio Granada, 1989. <em>Regulamento dos Romeiros da Ilha de São Miguel-Açores</em>. Diocese de Angra, 10 p.</p>
<p>LEMAIRE, Ria, 2002. Passado-Presente e Passado-Perdido: transitar entre a oralidade e a escrita. <em>In Letterature d’America</em>, Revista trimestral, Ano XXII, Brasiliana, Bulzoni Editora, 92: 83-121.</p>
<p>ZUMTHOR, Paul, 1983. <em>Introduction à la poésie orale</em>. Editions du Seuil, Paris, 313 p.</p>
<p>?  1987. <em>La Lettre et la Voix de la «Littérature» Médiévale</em>. Editions du Seuil, Paris, 350 p.</p>
<hr size="1" /><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftnref1">[1]</a> Entre cerca de 30 e 200 romeiros.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftnref2">[2]</a> Esta transição entre <em>regulamento consuetudinário</em> para <em>regulamento institucionalizado</em> das romarias constituirá um dos temas da tese de doutoramento que estamos a preparar. O termo <em>regulamento consuetudinário</em> foi sugerido pelo nosso orientador Doutor Carlos Cordeiro, professor auxiliar com agregação da Universidade dos Açores.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftnref3">[3]</a> Agradeço especialmente a colaboração de: Adriano Couto, mestre do rancho de romeiros dos Arrifes ; Renato Cordeiro, romeiro do rancho dos Arrifes ; Fernando Maré, mestre do rancho de romeiros da Ribeira Seca da Ribeira Grande ; Artur Almeida, mestre do rancho dos romeiros de Agua de Pau ; Henrique Pimentel, antigo contramestre do rancho de romeiros de Agua de Pau ; Carlos Sousa Melo, presidente do grupo coordenador das romarias.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftnref4">[4]</a> Entrevista feita no dia 24/04/2006.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftnref5">[5]</a> Na Universidade de Aveiro, tive a oportunidade de participar num seminário sobre metodologia de transcrição de uma entrevista. O processo que utilizei baseia-se num método simplificado seguindo, de maneira geral, as propostas de Gail Jefferson, Alain Blanchet e Anne Gotman. As entrevistas completas serão publicadas, brevemente, num CD que acompanhará a minha tese de doutoramento.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftnref6">[6]</a> A palavra “repentista” é, até hoje em dia, utilizada no Brasil para designar um poeta e improvisador. Relativamente aos mestres romeiros, o senhor Carlos Sousa Melo explica que eles eram repentistas porque “&#8230; eram capazes através da história bíblica de fazer quadras, em honra e louvor aos santos padroeiros de cada localidade e de cada igreja e ermida que se visitava, repentinamente &#8230;”</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftnref7">[7]</a> Entrevista feita no dia 09/05/2006.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftnref8">[8]</a> São romarias, no sentido medieval da palavra, das quais hoje em dia se conservam muitas reminiscências.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftnref9">[9]</a> A.P. de Nossa Senhora do Rosário, <em>Livro de Visitas (1600-1743)</em>, 30/06/1707, fls. 102-103.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftnref10">[10]</a> A.P. de São Pedro, Vila do Nordeste, Livro de Visitas (1693-1811), 16/09/1743, fls. 140-141.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftnref11">[11]</a> Entrevista feita no dia 26/04/2006</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftnref12">[12]</a> <em>Idem</em>.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftnref13">[13]</a> Muitos dos cânticos tradicionais que fazem parte da <em>Colecção I – Orações e cânticos antigos </em>encontram-se sem indicação do seu autor.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftnref14">[14]</a> Este momento pode ser feito em prosa ou em quadra. A oração feita em quadra designada por <em>cântico de entrada</em> , será exemplificada posteriormente.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftnref15">[15]</a> Este segmento pode ser cantado assim ou então com várias quadras, entoadas pelo Orador e repetidas pelos Romeiros. Exemplificaremos o trecho feito em várias quadras e designado por <em>cântico de saída</em> nas páginas seguintes.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftnref16">[16]</a> Extraído de <em>Romarias.Colecção I Orações e cânticos antigos</em>.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftnref17">[17]</a> Extraído de <em>Romarias.Colecção I Orações e cânticos antigos</em>.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftnref18">[18]</a> A “quadra” é a forma poética mais tradicional de Portugal.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftnref19">[19]</a> O cântico do Orador e a repetição do mesmo pelos romeiros fazem­?se em todos os dois versos, isto é, em cada dístico.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftnref20">[20]</a> Transcrição literal extraída de <em>Romarias. Colecção I Orações e cânticos antigos</em>. A cópia manuscrita do original deste cântico encontra-se no anexo 1.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftnref21">[21]</a> O Oferecimento à Virgem ou a Deus é feito em prosa pelo Orador antes do chamado “momento do reconhecimento dos pecados” (isto é, da reza pelos romeiros do acto de contrição).</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftnref22">[22]</a> Normalmente, a Salva à Cruz, feita em prosa, é declamada pelo Orador no fim do dia e na freguesia onde o rancho pernoita.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftnref23">[23]</a> Entrevista feita no dia 27/04/2006.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftnref24">[24]</a> O termo “toada” é também utilizado na improvisação pelo repente brasileiro desta melodia tradicional, que é sempre a mesma e que permite às pessoas reconhecerem, desde o primeiro verso, o tipo de melodia que ele vai produzir.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftnref25">[25]</a> Entrevista feita no dia 08/05/2005.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftnref26">[26]</a> Entrevista feita no dia 26/04/2006.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftnref27">[27]</a> Entrevista feita no dia 20/04/2005.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2005-2009/Artigo%20Universidade%20A%C3%A7ores/Artigo%20Ao%20encontro%20das%20tradi%C3%A7oes%20orais%20na%20pr%C3%A1tica%20Romeiros%20de%20Sao%20Miguel.doc#_ftnref28">[28]</a> CANTEL  2005.</p>
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		<title>Folhetos açorianos</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Feb 2015 17:54:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Ponte</dc:creator>
				<category><![CDATA[Tradição oral e escrita]]></category>

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		<title>Memórias e histórias locais 2</title>
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		<pubDate>Wed, 04 Feb 2015 15:25:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Memórias e histórias locais]]></category>

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		<title>História e memória: o caso das “aparições” de Água de Pau em 1918</title>
		<link>http://www.tradicoes-acorianas.com/memorias-e-historias-locais-1/</link>
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		<pubDate>Wed, 04 Feb 2015 15:24:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Memórias e histórias locais]]></category>

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		<description><![CDATA[Este texto apresenta o caso das “aparições” de Água de Pau, em 1918, num contexto mais vasto das “aparições” marianas que, a partir de Fátima, se verificaram noutras localidades e chegaram aos Açores. A reconstrução e análise objectiva da história das “aparições” de Água de Pau a partir da confrontação de fontes escritas e orais é o objectivo primordial deste trabalho. Para além da investigação na imprensa da época, o recurso à história oral permite conhecer o que ainda resta de significativo deste “acontecimento” na memória colectiva e do significado que se atribui à Ermida construída treze anos após as “aparições”.   
Texto publicado na Revista Estudos do Século XX, cf. PONTE, Carmen, “História e memória: o caso das aparições de Agua de Pau em 1918.” In Luís Torgal, Revista Estudos do Século XX, n°11, CEIS20, Universidade de Coimbra. 2011, pp. 335-353. <a href="http://www.tradicoes-acorianas.com/memorias-e-historias-locais-1/">Ler mais <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: bold;">Introdução</span></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>Entre Junho e Julho de 1918, verificou-se, na freguesia de Água de Pau da ilha de São Miguel, Açores, um singular fenómeno que muitos dos seus habitantes e parte da imprensa local denominaram de “aparições” de Nossa Senhora. Estas supostas “aparições” vêm no seguimento das que se verificaram em Fátima entre 13 de Maio e 13 de Outubro de 1917<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn1">[1]</a> e noutras localidades portuguesas. É neste contexto que nos propomos apresentar o caso das “aparições” de Água de Pau, em 1918, procurando analisar a partir da confrontação de fontes escritas e orais o processo cronológico e histórico das “aparições” e a edificação da ermida, que, ainda que “oficialmente” o não fosse, constituiu, sem dúvida, uma espécie de homenagem ao evento. Nesta perspectiva, pretende-se, pois, reconstruir a história das “aparições” de Água de Pau a partir, por um lado, da documentação escrita e por outro, da oralidade mnemónica como fonte alternativa de reconstrução do passado deste acontecimento local ainda preservado na memória da comunidade pauense. Para além da investigação na imprensa da época e nos documentos oficiais da Igreja, abordaremos, sobretudo, a “construção” da memória do acontecimento nas décadas seguintes, bem patente, por exemplo, na imprensa. Visto tratar-se de um tema do século XX, e partindo do princípio que a memória colectiva, como elo de interpretação do passado, é a voz e a imagem do acontecido, faremos uso de técnicas pertencentes ao universo metodológico da história oral como instrumento para o estudo deste facto de religiosidade popular de Água de Pau. Nesta perspectiva, a recolha de testemunhas orais (habitantes de Água de Pau) permitirá fornecer uma ideia aproximada do que ainda resta de significativo deste “acontecimento” na memória colectiva e também do significado que se atribui à Ermida sob a invocação de Nossa Senhora do Monte, construída treze anos após as “aparições”.</p>
<ol>
<li><strong>1. </strong><strong>As “aparições” de Água de Pau em 1918: reconstrução dos eventos</strong></li>
</ol>
<p><strong> </strong></p>
<p>Entre Junho e Julho de 1918, correu a notícia de que, na freguesia de Água de Pau, (concelho da Lagoa, ilha de São Miguel, Açores), teriam acontecido fenómenos sobrenaturais logo identificados como “aparições” marianas</p>
<p>A primeira “aparição” tem como testemunhas e protagonistas duas crianças: Maria Joana Soares Tavares do Canto, principal interveniente das “aparições” e do “milagre do Sol”, uma vez que era a única que afirmava dialogar com Nossa Senhora, e Maria Sofia, também conhecida por Sofia Paulino, ambas com 8 anos de idade. Maria Joana, filha de Teófilo Tavares do Canto e de Isolina Adelaide Soares &#8211; família de elevada posição social da freguesia de Água de Pau &#8211; nasceu a 21 de Agosto de 1910. Maria Sofia, que nasceu na América do Norte, era filha de pais de origem irlandesa que lá haviam morrido e foi adoptada por um casal sem filhos que se fixou em Água de Pau. Maria Sofia desempenhou neste processo das “aparições” de Água de Pau um papel secundário em relação a Maria Joana do Canto.</p>
<p>Com base na recolha de informações e artigos sobre o assunto, a primeira “aparição” ocorreu a 18 de Junho de 1918<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn2">[2]</a>. O único jornal que fornece esta data é o <em>Diário dos Açores</em>. Segundo o testemunho de Maria do Carmo do Canto, prima da “vidente” Maria Joana do Canto, esta primeira “aparição” de Nossa Senhora deu-se no quintal da casa do avô de Maria Joana, quando esta estava a brincar com Maria Sofia. A segunda “aparição” verificou-se no mesmo local, momento em que Nossa Senhora teria pedido às crianças para subirem ao monte chamado Pico da Figueira, como nos conta Maria do Carmo do Canto<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn3">[3]</a>:</p>
<p>A Joana e a Sofia tinham 8 anos, elas estavam a brincar as duas no quintal do Santiago e começaram a chorar muito. A avó disse: O que foi, o que é que aconteceu? Ela respondeu : Ai avó a gente viu ali em cima. Nossa Senhora só falava com Maria Joana. A gente viu uma Senhora ali em cima.</p>
<p>Quando ela mais a Sofia viram Nossa Senhora disseram aos pais: A gente viu uma senhora muito linda, muito linda. Os pais disseram: Vocês não digam nada a ninguém. Os avós e os pais ficaram muito aterrorizados e disseram que elas não tinham visto nada. No dia imediato, as pequenas estavam a brincar e tornaram a ver  Nossa Senhora. Ela disse para elas irem ali acima, (ao Pico) todos os dias, não é na parte onde está construída a ermida, mas é mais adiante, onde é mais estreito, até tinha uma cruz, mas as pessoas tiraram.</p>
<p>Analisando o texto <em>Fenómenos, Lendas e Monte Santo</em>, da autoria de Gil Moniz Jerónimo, um dos poucos investigadores que se debruçou sobre o assunto, na primeira “aparição” “… duas crianças que brincavam descuidadas numa casa solarenga da zona da Ermida de Santiago, de Água de Pau, viram um clarão no fundo do quintal, isto na direcção do ‘Pico do Concelho’, também conhecido por ‘Pico da Figueira’, do qual surgiu uma imagem de um homem chagado, de cuja fronte brotava sangue (…). Deixava transparecer a imagem de Cristo crucificado, segundo depois julgamento feito.”<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn4">[4]</a> Segundo o mesmo autor, na segunda visão apareceu Nossa Senhora às duas crianças: “Olhando furtivamente, de vez em quando para o pico lá ao fundo, na mesma direcção da primeira visão, a Joana notou que uma senhora vestida de branco envolta num clarão que seus olhos aceitaram, a chamava para o monte. Também a Sofia, por ter sido alertada, viu igualmente a misteriosa senhora.”<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn5">[5]</a> Relativamente a esta primeira visão, o jornal <em>A Ilha</em> apenas salienta que “a pequenina Maria Joana filha duma nobre família tivera a primeira visão, quando andava no Monte com uma criança de origem plebeia.”<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn6">[6]</a> Um outro jornal, o <em>Diário dos Açores</em>, relata com mais pormenor esta primeira “aparição”:</p>
<p>&#8230; estava a Maria Joana a brincar no quintal do seu avô paterno, em Santiago desta Vila (&#8230;), com uma sua amiguinha de escola e sua vizinha, a Sofia Paulino (&#8230;). Em dada altura da brincadeira, viram as crianças ao fundo do quintal uma grande claridade, sobre uma japoneira<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn7">[7]</a> e no meio dessa claridade uma Senhora, muito formosa, que lhes falou. As crianças, que não tinham mais que oito anos, ao princípio amedrontaram-se e fugiram, mas continuando a Senhora a chamá-las com muito bom modo voltam-se as meninas, por fim, acercando-se, então, da Senhora e esperando que Ela lhes falasse. Disse-lhes a Senhora que continuassem a ser boas e obedientes aos seus pais e a todos os seus superiores e que continuassem a rezar, pedindo a Nosso Senhor para que acabasse com a guerra. Recomendou-lhes também que dissessem aquilo mesmo a todo o povo da freguesia &#8230;<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn8">[8]</a></p>
<p>A partir destas quatro versões, verificam-se duas principais contradições: trata-se do local onde ocorreu a primeira “aparição” e da imagem que as crianças julgam ter visto. Se Maria do Carmo do Canto e o jornal <em>Diário dos Açores</em> afirmam que a primeira visão aconteceu no quintal do avô paterno de Maria Joana, o jornal <em>A Ilha</em> refere que esta ocorreu no próprio monte, o Pico da Figueira. A versão dada por Gil Moniz Jerónimo faz transparecer que as duas primeiras “aparições” têm a sua origem neste mesmo Pico. Além disso, é de salientar que segundo este mesmo autor, as crianças teriam visto, pela primeira vez, Cristo e não Nossa Senhora, que só surgiria a partir da segunda “aparição”.</p>
<p>De acordo com os relatos de Maria do Carmo, as duas crianças subiam ao monte todos os dias, para rezarem, como recomendado por Nossa Senhora. A Senhora também havia informado que dentro em breve se daria um milagre. O mesmo é mencionado pelo <em>Diário dos Açores</em> :</p>
<p>&#8230; e para isso recomendou-lhes mais ainda que fossem para o alto do monte, sobranceiro à Vila, em lugar que lhes havia de indicar, quando lá chegassem, prometendo que daí a dezoito dias havia de haver um sinal no céu ou na terra para que toda a gente se convencesse de que era verdade tudo quanto havia dito. Isto passou-se a 18 de Junho de 1918 e logo no dia imediato, depois da escola, as crianças foram para o alto do monte como a Senhora recomendara. Ao chegarem ao cimo do monte, a senhora apareceu-lhes, no meio duma grande claridade e no outro extremo do monte, quase a meio da encosta, voltada para a Caloura. As crianças foram até junto dessa claridade, só por elas vista, e aí se ajoelharam a rezar por longo tempo, ficando a Maria Joana mesmo quase em êxtase.<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn9">[9]</a></p>
<p>Na segunda “aparição” (19/06/1918), Nossa Senhora comunicara-lhes que no espaço de 18 dias se daria um acontecimento, na terra ou no céu que credibilizasse os acontecimentos e pediu-lhes para que anunciassem esta revelação à população. Segundo o testemunho de Maria do Carmo, as mensagens transmitidas durante as “aparições” apelavam à oração para acabar com a guerra<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn10"><sup><sup>[10]</sup></sup></a>, à alteração do nome do Pico onde se sucederam as supostas “aparições”, que por vontade da “entidade celeste” deveria chamar-se Monte Santo, à construção de uma ermida no lugar onde ocorriam estas “aparições”, isto é, no Pico da Figueira. Para além disso, a “Senhora muito linda” teria comunicado a Maria Joana que a levaria para o céu quando completasse os 18 anos<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn11">[11]</a>. Segundo o mesmo testemunho, as duas “videntes” terão sido censuradas e desencorajadas pelos pais, o mesmo não acontecendo com a tia­?avó de Maria Joana, que, pelo contrário, acreditou nas duas crianças, incentivando-as a cumprirem os pedidos e mensagens transmitidas durante as “aparições”:</p>
<p>Mais prudentes e para não serem desmentidas, como o haviam sido antes, as duas meninas contaram mais este acontecimento à tia-avó da Joana, já sua confidente. Esta, embora soubesse que a encosta do monte não possuía acesso e era muito íngreme e parcialmente coberto por silvado, aconselhou-as a irem ao monte rezar, ao encontro da senhora que as havia chamado. Mas não só as incentivou a cumprirem aquilo que sentiam, como também ela, muito devota senhora, dali avante procurou acompanhar as duas crianças que iam orar ao pico.<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn12">[12]</a></p>
<p>É a partir das visitas quotidianas das duas “videntes” ao “Monte Santo”, acompanhadas pela tia-avó de Maria Joana que os habitantes de Água de Pau começaram a aderir e a afluir ao citado Monte, como afirma Gil Moniz Jerónimo: “Porque já acompanhadas na subida e na descida por muita gente de água de Pau, então os pais aceitaram aquela misteriosa atracção.” A revelação de que a 5 de Julho iria ter lugar um acontecimento proporcionou, sem dúvida, o aumento de curiosos e de crentes a concorrerem ao Monte Santo.</p>
<ol>
<li><strong>2. </strong><strong>O Milagre do Sol e a mediatização do fenómeno</strong></li>
</ol>
<p>No dia 5 de Julho de 1918, um ano depois das “aparições” em Fátima, o fenómeno do Sol, tal como em Fátima, reproduziu-se em Água de Pau, no então já apelidado de Monte Santo. Segundo o testemunho oral de Maria do Carmo, “houve 12 mil pessoas no Monte Santo a presenciarem as “aparições”, até veio gente de Santa Maria (&#8230;). O Sol começou a girar, a girar e as pessoas gritaram todas dizendo meu Deus, nós vamos morrer hoje. Depois o Sol parou de girar e de ter claridade e apareceu a Sagrada Família, os Anjos, muitas coisas e a ermida do Monte Santo.”</p>
<p>É a partir deste evento que a imprensa local começa a aproximar-se e a relatar os factos milagrosos. No entanto e apesar de o jornal <em>O Autonómico</em> ter recebido notícias sobre as anteriores “aparições”, deslocando um redactor ao local para recolha de informações, afirma que nada recolheu de seguro e de credível para publicação dos acontecimentos:</p>
<p>Havendo aqui chegado com insistência várias notícias acerca de factos maravilhosos, ocorridos no pico fronteiro, freguesia de Nossa Senhora dos Anjos, de Água de Pau, resolvemos, como aliás muita e muito boa gente, de perto e de longe, ir também até lá com uns amigos e, depois de vermos e ouvirmos alguma coisa, colhendo mesmo informações da protagonista, não concluímos, francamente, nada de seguro que pudéssemos comunicar aos nossos leitores.</p>
<p>Julgamos pois mais prudente ficar de reserva até que fale, se falar, quem é competente em tais casos.<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn13"><sup><sup>[13]</sup></sup></a></p>
<p>Contrariando a visão céptica que tinha apresentado no seu número de 29 de Junho, o jornal <em>O Autonómico</em> é o que relata mais extensamente este acontecimento de 5 de Julho, com um artigo do editor e director do jornal, António Rodrigues Carroça e uma carta de um residente em Água de Pau, Leopoldo Brèe d’Almeida Tavares de Medeiros. António Rodrigues Carroça, testemunha ocular do acontecimento de 5 de Julho, descreve o “milagre do Sol” ocorrido às 6 horas da tarde que extasiou a “vidente” Maria Joana:</p>
<p>Basta de reserva e silêncio!&#8230;</p>
<p>De mais a mais, pedem-me com insistência que eu narre o que observei e ouvi sexta-feira, 5 do corrente, no pico de Água de Pau, aonde fui pela segunda vez naquele dia, inesperadamente, atraído pelos casos maravilhosos que se contavam e também pela concorrência de pessoas, de ambos os sexos, de todas as classes, que pressurosamente para lá corriam desde o amanhecer.</p>
<p>Vou, pois, com toda a verdade e sinceridade, como me cumpre nesta ocasião melindrosa, esforçar-me por satisfazer à expectativa dos que estão à espera das minhas impressões.</p>
<p>Entrei no pico às 4 e 20 minutos da tarde. (&#8230;) Para cima das 10:000 pessoas, com certeza, de vários pontos da ilha, povoavam a parte escalvada e se estendiam ainda pelas encostas (&#8230;) aguardam ansiosas a vinda da menina vidente, que então saía já de casa, cortejada pelos seus, extremosos pais e muito povo.</p>
<p>Quatro e meia, ou pouco mais, assoma a ditosa criança à entrada do pico.</p>
<p>(&#8230;) a menina é conduzida ao colo de um homem até ao lado sul do pico, (&#8230;) aonde foi fazer oração a Nossa Senhora. (&#8230;) Comecei então a andar, com grande dificuldade, de um lado para o outro, no intuito de ouvir o que diziam, (&#8230;) notando nas pessoas que ali estavam, muita impaciência e descrença em tudo o que até então se ouvira dizer. (&#8230;) Faltavam, porém, uns minutos para as 6 horas, e eis que ela apareceu, subindo o pico e dizendo a algumas pessoas que a seguiam, que ia aparecer uma coisa no Sol ! Não ouvi isto ; simplesmente vi o tal homem pegar nela ao colo, mal chegou ao cimo do pico. (&#8230;)</p>
<p>E, procurando fitar o astro do dia, os seus raios luminosos, dando em cheio nos meus olhos, quase me cegaram. Esmorecido então e caindo em mim, tudo aquilo me pareceu um logro.</p>
<p>Tentei ainda olhar de novo para aquele astro e … a mesma coisa!&#8230; (&#8230;) Foi então que, vendo um facto extraordinário, que me pareceu sobrenatural, caí em terra de joelhos ante tão grande maravilha (&#8230;) O Sol havia se despido do seu grande brilho para melhor o fitarmos. Parecia um espelho, quase na perfeição, deixando-me ver no seu centro coisas semelhantes a figuras que a minha vista infelizmente não pôde distinguir, mas que milhares de pessoas, que estavam em volta de mim, diziam a uma voz, com grande satisfação e assombro, serem de Nossa Senhora, de Nosso Senhor, de anjos e de uma igreja ! (&#8230;)</p>
<p>Em seguida, uma nuvem correu por sobre o sol que para logo se apresentou do mesmo modo e outra vez com figuras, depois de por alguns segundos dar um movimento como uma roda de fogo preso. Tão excepcional fenómeno repetiu-se pelo espaço de um quarto de hora, aproximadamente, com ligeiras interrupções.</p>
<p>E emquanto isto se passava, a feliz vidente parecia desmaiada ao colo do homem, muito perto de mim.</p>
<p>Espectáculo igual nunca os meus olhos viram e como que jamais verão!&#8230;<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn14"><sup><sup>[14]</sup></sup></a></p>
<p>No momento crucial do milagre, este homem crente<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn15">[15]</a> confessa que o Sol ficou menos brilhante, movimentando-se em redor de si próprio como uma roda de fogo preso. Apesar de ter notado no centro do Sol “coisas semelhantes a figuras”, não conseguiu distingui-las, tratando-se para muitos da imagem de Nossa Senhora, Nosso Senhor, anjos e uma igreja.</p>
<p>A carta da autoria de Leopoldo Brèe d’Almeida Tavares de Medeiros, intitulada <em>O acontecimento de 5 de Julho em Água de Pau</em> e publicada neste mesmo jornal de 13 de Julho de 1918, a que se refere António Rodrigues Carroça, descreve o mesmo fenómeno visto por ele e por outras testemunhas oculares:</p>
<p>&#8230; Fixando com constância o Sol, viu este bailar, perder o seu brilho natural (&#8230;) ficar cor de lilás desvanecido e logo após isto, ele rodear-se de uma auréola prateada brilhante e dentro do disco solar, que então se assemelhava a um colossal espelho, aparecer na sua base um quadro que tinha analogia com a conhecida “Ceia de Cristo” (&#8230;) No entanto houve também uma grande quantidade de gente que viu distintamente Nossa Senhora com o menino ao colo &#8230;<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn16"><sup><sup>[16]</sup></sup></a></p>
<p>É de salientar que nenhum outro jornal local se pronunciou sobre os factos milagrosos de 5 de Julho. Só um mês depois do sucedido aparece um artigo no jornal <em>Ecos do Norte</em> sobre o acontecimento. Este artigo de crítica às “aparições”, publicado a 31 de Agosto de 1918, foi o único de combate a este fenómeno de Água de Pau e que merece ser aqui transcrito:</p>
<p>Está o nosso país em maré de aparições. (&#8230;) Achamos aparições demais; (&#8230;) Porque quando uma menina via a Nossa Senhora no célebre pico de Água de Pau, outros a viam no Sol, e quando uns a viam a pé, outros a viam montada numa burra, e até não faltou quem ao mesmo tempo contemplasse no rei dos astros a ceia apostólica ; enfim uma fita cinematográfica de uma ligeireza e simultâneo efeito, que só por si constitui um prodígio difícil de explicar. (&#8230;) O já célebre milagre de Água de Pau porém parece não ter outro, senão a mudança do nome de um pico e a canonização de uma menina. Diligencia-se levar até ao fim uma paródia, que já conta episódios ridículos demais. (&#8230;)</p>
<p>Há contudo quem se obstine em afirmar que se deu um milagre em Água de Pau. Não seremos nós que sustentaremos discussão para o negar. Futilidades não se discutem. De mais a mais sabemos de sobejo até onde chegam a fé e devoção dos devotos milagreiros, que sobrepõem ao testemunho infalível da Igreja na sua doutrina, o de umas crianças, a quem por força querem decorar com o título de santas. Fiquem-se por lá com essa santidade doméstica para seu uso ; (&#8230;)</p>
<p>Fique pois bem assente: o milagre de Água de Pau é apenas um pergaminho de propriedade e uso particular, pelo qual o público não dá coisa nenhuma. Não chegou mesmo a ser um logro, foi apenas uma comédia. Os ensaios feitos até agora com a <em>menina</em> para fazer dela uma taumaturga não deram o menor resultado.<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn17"><sup><sup>[17]</sup></sup></a></p>
<p>O autor deste artigo identifica os acontecimentos milagrosos de Água de Pau, como uma comédia, uma ilusão vivida pela própria protagonista, “uma paródia, que já conta episódios ridículos demais”, salientando que factos desses “não deveria ter outro registo na imprensa, que não fosse o de uma inteira reprovação”. Não tomando a sério o milagre do Sol, ele afirma que o único objectivo deste acontecimento consiste na mudança do nome de um pico e na canonização da protagonista.</p>
<p>Saliente-se que o autor do artigo é o padre António F. de Mendonça, o único articulista que critica estes acontecimentos na imprensa açoriana de 1918. No entanto, este é o único membro da hierarquia eclesiástica que se pronunciou abertamente sobre o acontecimento, pois no jornal <em>O Autonómico</em>, de 13 de Julho de 1918, Leopoldo Brèe d’Almeida Tavares de Medeiros, referindo-se à opinião do Clero, refere que este manteve prudência e reserva face aos factos:</p>
<p>Vem também aqui a propósito falar do Red.° Vigário João Moniz de Melo, actual administrador do Concelho da Lagoa, o qual durante o período dos tão decantados 18 dias, foi sensatíssimo, não tendo já mais deixado transpirar a sua opinião, muito embora tivesse sido insistentemente consultado sobre o assunto. S. Ex.<sup>a</sup> achou porém que como autoridade eclesiástica e civil o seu papel era o de uma incondicional reserva &#8230;<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn18"><sup><sup>[18]</sup></sup></a></p>
<p>A este propósito, é de referir, igualmente, que, para além de <em>O Autonómico</em>, nenhum outro jornal católico (por exemplo, <em>A Crença</em>) comentou o assunto, o que leva a crer que havia por parte da maioria do clero e da Diocese de Angra uma certa prudência e silêncio sobre o acontecimento em questão.</p>
<p>No entanto e possivelmente devido à mediatização dos factos, à importância dada pela população aos sucessivos acontecimentos, como também ao facto de se estar num regime republicano de matriz anti-clerical, Gil Moniz Jerónimo refere que as autoridades policiais de Ponta Delgada se deslocaram a casa dos pais da “vidente” Maria Joana “a fim de averiguar aquilo que havia acontecido. Porém, verificando esta que se não tratava de qualquer tipo de burla espiritual de extorsão mental, porque era bastante evidente o grau de riqueza material e social dos pais da criança, a mesma não demorou a sua estadia na Vila de Água de Pau, ficando, por isso, encerrado este caso de investigação civil &#8230;” <a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn19">[19]</a></p>
<p>A partir desta última “aparição”, os jornais da época parecem ter dado pouco relevo ao prosseguimento dos fenómenos, pois, pela investigação a que procedemos, pudemos concluir, para os nove anos que se situam entre 1919 e 1927, pela inexistência de qualquer artigo ou notícia em relação a estes eventos. É a partir do falecimento da “vidente” Maria Joana do Canto, em 1928, que o tema das “aparições” e o projecto da edificação da ermida começam a adquirir relevo e polémica na imprensa local.</p>
<ol>
<li><strong>3. </strong><strong>À volta da construção de uma ermida: génese e polémica</strong><strong> </strong></li>
</ol>
<p>É apenas em 1928, 1929 e mais tarde em 1966 que o fenómeno das “aparições” reaparece novamente nos jornais micaelenses, pois como vimos, de 1919 a 1928 o acontecimento do milagre deixara de merecer atenção:</p>
<p>Mas foram rolando os anos; (…) Esfriados os fervores, quem ouvira até há pouco uma só palavra ou lera uma linha sobre picos e ermidas ou ermidas sobre picos? Era, repetimos, um plano morto … Todavia – curiosa ironia, muito singular! – foi a morte que veio insuflar novos alentos de vida, que veio ressuscitar o plano, a antiga aspiração … Foi a morte que, fechando à luz deste mundo os olhos da pretendida vidente, deu ensejo a que, numa tão maquiavélica exibição de sentimentalismos e credulidade calculista, uma pena de Água de Pau viesse à imprensa desta cidade agitar de novo a lembrança das pretendidas aparições.<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn20"><sup><sup>[20]</sup></sup></a></p>
<p>O falecimento da “vidente” Maria Joana do Canto a 6 de Outubro de 1928<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn21">[21]</a> veio reavivar o plano de construção de uma ermida &#8211; sob a invocação de Nossa Senhora do Monte &#8211; em memória dos fenómenos ocorridos em 1918 no Pico de Água de Pau. O facto de a “vidente” ter falecido aos 18 anos como previsto pela suposta “Senhora muito linda” irá, sem dúvida, conferir, retroactivamente, uma certa credibilidade aos factos e desencadear um aumento do número de devotos que se deslocavam ao local das “aparições”. Saliente-se, todavia, que os jornais de 1918 que relatam o milagre do Sol de 5 de Julho nunca mencionaram este tipo de declarações ou previsões, que apenas foram expostas e narradas nos jornais locais após a morte de Maria Joana. Trata-se de uma simples coincidência ou como diz J. Costa de uma “tão maquiavélica exibição de sentimentalismos e credulidade calculista”? Este é um assunto que, de facto, levantou uma certa polémica. Com efeito, é sobretudo em 1928<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn22"><sup><sup>[22]</sup></sup></a> e 1929 que os factos de 1918 e o projecto de construção da ermida vão ser criticados pelos jornais micaelenses. Um correspondente anónimo do <em>Correio dos Açores</em> redige um artigo,  publicado a 14 de Junho de 1929, intitulado “A volta de uma ermida”, em que se informa que  a construção da ermida foi autorizada pelo poder eclesiástico, sendo o lançamento da primeira pedra previsto para dia 16 de Julho daquele ano. Além disso, associa o caso de Água de Pau a uma história de “histerismo”.<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn23"><sup><sup>[23]</sup></sup></a> Em resposta a este artigo, o jornal <em>O Autonómico</em>, que em 1918 havia relatado e defendido o milagre (relato feito pelo próprio director do jornal, António Rodrigues Carroça que presenciou o acontecimento), critica o texto do correspondente anónimo, defendendo que “O Prelado deu a licença pedida, como daria para a construção de qualquer outra ermida. Não o esclareceram sobre factos precedentes, nem lhe manifestaram os propósitos dos promotores da obra. Não chamem, pois, a Igreja, em abono de milagres que nunca se propôs estudar e muito menos apoiar.”<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn24"><sup><sup>[24]</sup></sup></a> A consulta ao <em>Boletim Eclesiástico dos Açores</em> e à imprensa da época demonstra, sem quaisquer margem para dúvidas, que a Igreja diocesana não deu qualquer relevo às “aparições” e que o próprio clero, como atrás se referiu, não procurou, de qualquer modo, credibilizar o “fenómeno”.</p>
<p>A 16 de Junho de 1929, o <em>Correio dos Açores</em> publica uma declaração redigida pela comissão construtora da ermida, afirmando que nada havia de comum entre a projectada ermida e os factos ocorridos naquele Pico em Julho de 1918:</p>
<p>A Comissão que dirige as obras desta ermida, receando que tudo se tenha dito ou escrito, que não seja da autoria de nenhum dos seus membros, fosse dar lugar a interpretação de molde a desvirtuar a boa intenção, que a levou a tomar tal empreendimento pede-nos que tornemos público que tal obra não é feita com o intento de consagrar ou perpetuar factos passados há cerca de dez anos no Pico, hoje mais conhecido de Monte Santo, daquela freguesia, mas tão somente levantar naquele Monte, em lugar bastante afastado do que foi teatro de referidos factos, um pequeno monumento à Virgem.<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn25"><sup><sup>[25]</sup></sup></a></p>
<p>Antes de prosseguir, torna-se importante falar um pouco da comissão que dirigiu este projecto. Floriano Victor Borges, Agente Técnico de Engenharia e natural daquela freguesia era o presidente da comissão construtora do projecto. Parente da família da “vidente” e aderente ao fenómeno das “aparições”, ele próprio afirmou ter tido a visão da futura ermida.<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn26">[26]</a> Um outro residente de Água de Pau, Leopoldo Brèe d’Almeida Tavares de Medeiros, que escreveu, no jornal <em>O Autonómico</em>, vários artigos de defesa e adesão às “aparições”, é também uma das testemunhas que teriam presenciado o acontecimento de 5 de Julho de 1918, relatando no mesmo jornal que “ainda ali esper[ava] ver uma branca ermidinha a constatar o facto &#8230;”<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn27">[27]</a>. Segundo J. Costa, no seu artigo intitulado<em> </em>“A celebre ermida. Quatro desastres distintos numa declaração … não verdadeira”<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn28"><em><strong>[28]</strong></em></a>, Leopoldo Tavares de Medeiros desempenhava o cargo de tesoureiro da comissão e fora destituído das funções na sequência da polémica sobre a relação existente entre a construção da ermida e as “aparições”. Na sua perspectiva, teria sido esta a razão principal da destituição do tesoureiro, na medida em que fora o primeiro a ambicionar a edificação da ermida para eternizar o milagre de 1918, facto que a própria comissão tentava desmentir afirmando que a construção da ermida nada tinha de comum com as “aparições”. Para além disso, tudo indica que a comissão já teria alguns anos de existência, visto que, e segundo J. da Costa, o pauense Leopoldo de Medeiros “&#8230; foi, por muito tempo, membro da comissão construtora &#8230;”<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn29">[29]</a> É provável que a comissão se tenha organizado logo após as “aparições” de 1918. Entretanto e como as autoridades eclesiásticas nunca apoiaram o projecto, e por conseguinte não concediam a autorização para a edificação da ermida<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn30">[30]</a>, esta só teve lugar apenas onze anos depois dos factos ocorridos.</p>
<p>De facto, os artigos de 22 de Junho e de 5 de Julho de 1929 publicados no jornal <em>Correio dos Açores</em> criticam abertamente a supracitada declaração da comissão construtora da ermida, negando a relação da construção deste pequeno templo com as “aparições” de 1918. O articulista, para além de qualificar as “aparições” de “deplorável comédia”,   considera esta declaração de “tardia, infeliz e contraproducente”, visto que a construção da ermida estava automaticamente ligada às “aparições” e consequentemente à “vidente” Maria Joana do Canto: “a ideia da erecção de uma ermida no Alto do Pico de Água de Pau teve como origem única a serie de factos anormais, bem lamentaveis, que se desenrolaram naquele lugar em 1918.”<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn31"><sup><sup>[31]</sup></sup></a> Segundo este articulista, foi o artigo de 14 de Junho do <em>Correio dos Açores</em>, intitulado “A volta de uma ermida”, desaprovando o fenómeno sobrenatural, que levou a comissão construtora declarar, nas colunas do <em>Diário dos Açores</em> e do <em>Correio dos Açores</em>, que nada havia de comum entre a construção da ermida e as “aparições”. A desaprovação, da parte do clero, contribuiu certamente para a publicação desta declaração, pois o próprio clero teria enviado ao Governador do bispado uma declaração de oposição à construção da ermida em memória das “aparições”:</p>
<p>Porque a correspondência de Água de Pau veio a lume depois da declaração de guerra que o ilustrado clero micaelense, representado por cerca de vinte dos seus mais considerados elementos (…) representaram colectivamente ao muito digno Governador do Bispado, contra o projecto da edificação da ermida, destinada a comemorar as falsas aparições e a atrair, com fim de exploração, os devotos crentes numa detestável mentira (…). Depois do protesto e da representação elucidativa dirigida ao digno Governador do Bispado, é que veio a declaração … (…) E o digno Governador do Bispado, o ilustre Sr. Dr. José Bernardo de Almada revogou a licença que ardilosamente lhe tinham extorquido.<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn32"><sup><sup>[32]</sup></sup></a></p>
<p>Ao protesto do Clero, juntou-se a recusa, por parte das autoridades eclesiásticas, da autorização para a edificação da ermida, razão pela qual a comissão se sentiu na obrigação de negar a relação da construção da capela com as “aparições”, argumentando que a construção da ermida iria ser feita “em lugar bastante afastado do que foi teatro de referidos factos”, isto é no local completamente oposto ao das “aparições”. No entanto, trata-se de um argumento sem fundamento, visto que “ … o lugar destinado à futura ermida é o único ponto sólido daquele pico, o único que pode suportar um edifício, porque o lugar das aparições … é uma elevação de cascalho (…) que nem com supremos esforços de engenharia pode suportar uma parede!”<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn33"><sup><sup>[33]</sup></sup></a> Apesar de toda esta polémica, a comissão construtora conseguiu alcançar do Governador do Bispado a licença canónica para a construção da ermida, tendo sido esta inaugurada a 29 de Setembro de 1931<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn34">[34]</a>, seguida de uma procissão e de uma missa realizada pelo vigário de Água de Pau.<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn35"><sup><sup>[35]</sup></sup></a></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<ol>
<li><strong>4. </strong><strong>A imagem do acontecido na memória colectiva</strong></li>
</ol>
<p>O pico de Água de Pau foi o palco privilegiado das “aparições” atrás relatadas e o lugar ideal para a edificação da ermida de Nossa Senhora do Monte, pois é impossível passar por esta localidade sem se ver este pequeno templo. Se, segundo Halbwacks<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn36">[36]</a>, toda a memória colectiva assenta num quadro espacial, sendo o espaço uma realidade durável porque é fácil penetrar no passado através dele, o lugar onde se encontra a ermida de Nossa senhora do Monte pode ser considerado como uma reconstrução e uma representação dos factos passados mantendo-os sempre vivos no presente. Neste contexto, trata-se de um lugar que num determinado momento específico – 1918 – se transforma num lugar simbólico pelos fenómenos ocorridos – “aparições” marianas – fixando a história deste acontecimento pela “materialização do local” através da construção da ermida. Será, pois, este pequeno mas bem visível edifício a transmitir um sentido de continuidade com os acontecimentos ocorridos no passado. A ermida constitui então, no presente, a imagem materializada, a referência por excelência, dos factos ocorridos em 1918. Nesta relação da memória com o lugar, com o espaço, torna-se importante perscrutar o que ainda resta de significativo deste “acontecimento” na memória colectiva e também indagar do significado que a comunidade local atribui à Ermida sob a invocação de Nossa Senhora do Monte, construída treze anos após as “aparições”. Assim, e a partir das significações que os entrevistados<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn37">[37]</a> desta localidade de Água de Pau exprimiram sobre o fenómeno de 1918, concluímos que a história das “aparições” ocorridas no Monte se encontra ainda bem presente na memória colectiva. Contudo, foram os mais idosos que relataram o fenómeno de 1918 com mais pormenor contrariamente aos mais jovens, que têm conhecimento do acontecimento, mas de forma mais vaga. Apesar disso, poucos são os que ainda se lembram do nome da “vidente”, pois durante as várias conversas com os entrevistados verificámos que utilizavam o substantivo “pequena”, “menina” ou então citavam a “filha do senhor Teófilo” quando se referiam a Maria Joana do Canto. Para a maioria dos informantes, todas as “aparições” ocorreram no cognominado “Monte Santo”. Contudo, o chamado “milagre do Sol”, de 5 de Julho de 1918, é sobretudo relembrado e contado pelos mais idosos. Constatámos também que os entrevistados com mais idade mencionaram que as “aparições” ocorreram no local oposto à ermida, enquanto que para os restantes as “aparições” aconteceram no local onde foi construído o pequeno templo. Relativamente à ermida, alguns residentes mencionaram que a “vidente” teria pedido aos pais a sua construção. Apenas um entrevistado referiu que a Igreja nunca acreditara neste fenómeno e que o facto de a família provir de um estrato social e financeiro elevado contribuiu consideravelmente para que a construção da ermida fosse autorizada pelas autoridades eclesiásticas. No que diz respeito à credibilidade do fenómeno, a maior parte dos entrevistados acredita nos acontecimentos ocorridos no “Monte Santo”, considerando-os verídicos, contrariamente às opiniões formadas pelos mais jovens que não acreditam no fenómeno, argumentando que Maria Joana do Canto sofria de transtorno mental (esquizofrenia). Na análise das entrevistas, ficou evidente que a protagonista Maria Sofia, raramente é referida pelos entrevistados, sendo Maria Joana do Canto a principal, e por vezes a única, interveniente no acontecido.</p>
<p>Relativamente ao significado que atribui à Ermida de Nossa Senhora do Monte, a população abordada demonstrou-se convicta de que a construção da ermida se encontra automaticamente ligada aos acontecimentos de 1918. Para os entrevistados a ermida é a imagem-recordação e a representação dos factos passados na memória colectiva.</p>
<p><strong>Conclusão</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>O fenómeno das “aparições” de Água de Pau, contrariamente ao que aconteceu em Fátima, viveram apenas alguns minutos efémeros do jornalismo açoriano. Luís Reis Torgal ao estudar o processo das “aparições” de Fátima, faz uma análise comparativa entre Fátima e Lourdes, evidenciando as afinidades existentes entre elas.<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn38">[38]</a> Ao compararmos a sua análise com o caso das “aparições” de Água de Pau, verificamos que existem aspectos que se aproximam significativamente dos acontecimentos de Fátima. De facto, as principais protagonistas eram crianças do sexo feminino; Maria Joana do Canto, tal como Lúcia, era a única que dialogava com Nossa Senhora; a aparência do espectro durante as “aparições” era a de uma “Senhora muito linda”; as mensagens transmitidas por esta “Senhora” eram sobretudo o apelo à oração para a paz em Portugal, o pedido da construção de um templo mariano no local das “aparições” e a promessa de fazer um milagre de forma a credibilizar os eventos; a descrição do “milagre do Sol” assemelha-se ao “bailado do Sol” ocorrido em Fátima. Mas há também um aspecto que difere significativamente de Fátima: o estrato social da principal “vidente”, que, como se referiu, em Água de Pau provinha de uma família abastada.</p>
<p>Os jornais <em>O Autonómico</em>, <em>Diário dos Açores</em> e <em>A Ilha</em> foram os que, de um certo modo, reconheceram o fenómeno, relatando e divulgando o evento do “milagre do Sol” de 5 de Julho de 1918 e a construção da ermida, enquanto nos jornais <em>Ecos do Norte</em> e <em>Correio dos Açores</em>, os artigos publicados procuravam desacreditar o “fenómeno”, condenando vivamente as tentativas de aproveitamento da credulidade popular para transformar o suposto acontecimento sobrenatural em “aparição” mariana. As autoridades eclesiásticas revelaram, face ao fenómeno das “aparições” de Água de Pau uma grande prudência e nunca se pronunciaram publicamente sobre o assunto, sendo certo, porém, que foi da pena de um padre que partiu o primeiro artigo fortemente crítico da publicidade que estava a ser conferida ao assunto.</p>
<p>O conteúdo dos raros textos que encontrámos sobre o tema em questão é lacónico e até mesmo enigmático: os factos narrados pelos diferentes autores diferem e até por vezes são contraditórios, sobretudo no que diz respeito às primeiras “aparições”. Para além disso, é de salientar que as mensagens e previsões transmitidas pela “Senhora muito linda” só são relatadas e divulgadas pela imprensa aquando da morte de Maria Joana do Canto e da edificação do local sagrado.</p>
<p>Entre 1919 e 1927, o evento de Água de Pau deixou de ser assunto de destaque para a imprensa e durante este período de nove anos parece mesmo ter caído no esquecimento. Mas em 1928, o falecimento da “vidente” Maria Joana do Canto relançou o assunto das “aparições” e sobretudo serviu de pretexto e motivação para a realização do projecto da construção do local sagrado e do seu culto. Os familiares de Maria Joana do Canto empenharam-se na missão de comprar a parte do terreno onde ia ser construída a ermida de Nossa Senhora do Monte, sendo eles os principais impulsionadores e quem, financeiramente, mais contribuiu para a edificação da ermida. Apesar de as autoridades eclesiásticas não se terem pronunciado sobre as “aparições” e do Clero ter protestado e reprovado o projecto da edificação da ermida destinada a comemorar as “aparições”<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftn39">[39]</a>, a licença canónica para a sua construção será concedida pelo Governador do Bispado em 1929. Embora a própria comissão construtora tenha negado a relação da construção da ermida com as “aparições”, facto que se justifica pelos protestos e oposições do clero e das autoridades eclesiásticas, tudo indica que este projecto de santidade do monte e de edificação de uma ermida como forma de eternizar os factos assenta sobretudo numa “construção dos pais” de Maria Joana do Canto. O desgosto da morte da única filha, aos 18 anos, terá, certamente, contribuído para acelerar o processo de construção da ermida, que passaria também a constituir uma espécie de homenagem póstuma à jovem, se bem que tanto na ermida do Monte como no jazigo de Maria Joana do Canto não há nenhuma dedicatória ou lápide em memória da “vidente” ou do fenómeno de 1918. No entanto e de acordo com a investigação e análise das entrevistas, o fenómeno de 1918, num contexto de transmissão oral, ainda se  encontra presente no imaginário popular e na memória do povo pauense, pois trata-se de um acontecimento que foi aceite pela população que o recebeu, reconheceu-o e prolongou-o ao longo das gerações. O local apelidado de “Monte Santo” e assim conhecido por todos os residentes passou a ter um sentido primordial na história do fenómeno e a ermida constitui o monumento simbólico que permite recordar e evocar a presença do acontecimento, mantendo-o sempre vivo e presente na memória colectiva.</p>
<p><strong>Bibliografia</strong><strong> </strong></p>
<p>AVLIS, J. &#8211; «Água de Pau deseja preparar o caminho de acesso à ermida de Nossa senhora do Monte, para poder entrar na excursão das três ermidas». <em>Diário dos Açores</em>. Ponta Delgada, Ano 97, N°26194, 20 de Agosto de 1966, pp. 1-3.</p>
<p>AVLIS, J. &#8211; «Água de Pau. Ainda o caminho que deve conduzir ao santuário de Nossa Senhora, no cimo do Monte, e a estátua do Sagrado Coração de Maria». <em>Diário dos Açores</em>. Ponta Delgada, Ano 97, N°26207, 5 de Setembro de 1966, p. 1.</p>
<p>AVLIS, J. – «Água de Pau. De como principiaram as aparições de Nossa Senhora em 1918, e de como ocorreram as aparições do milagre do Sol ao Papa Pio XII, cognominado o Papa de Fátima». <em>Diário dos Açores</em>. Ponta Delgada, Ano 97, N°26210, 08 de Setembro de 1966, p.1.</p>
<p>CARROÇA, António Rodrigues - «Um facto extraordinário». <em>O Autonómico</em>. Vila Franca do Campo, Ano XX, N° 949, 13 de Julho de 1918, p. 2.</p>
<p>COSTA, J. – «Um pouco tarde … A propósito da ermida no Pico de Água de Pau». <em>Correio dos Açores</em>. Ponta Delgada, Ano X, N° 2633, 22 de Junho de 1929, p.1.</p>
<p>COSTA, J. – «A célebre ermida. Quatro desastres distintos numa declaração … não verdadeira». <em>Correio dos Açores</em>. Ponta Delgada, Ano X, N°2637, 5 de Julho de 1929, pp. 1-2.</p>
<p>HALBWACHS, Maurice &#8211; <em>La Mémoire Collective</em>. Paris : Albin Michel, 1997, 295 p. ISBN 2-226-09320-6.</p>
<p>JERÓNIMO, Gil Moniz &#8211; «Fenómenos, Lendas e Monte Santo». <em>Açores, Mistério Insondável</em>. 1ª ed. Ponta Delgada: EGA, 2002. pp. 93-129.</p>
<p>MEDEIROS, Leopoldo Brèe d’Almeida Tavares de – «O acontecimento de 5 de Julho em Água de Pau». <em>O Autonómico.</em> Vila Franca do Campo, Ano XX,  N° 949, 13 de Julho de 1918, p. 2.</p>
<p>MEDEIROS, Leopoldo Brèe d’Almeida Tavares de – «O acontecimento de 5 de Julho em Água de Pau». <em>O Autonómico</em>. Vila Franca do Campo, Ano XX, N° 951, 27 de Julho de 1918, pp. 1-2.</p>
<p>MEDEIROS, Leopoldo Brèe d’Almeida Tavares de – «Voltando a campo». <em>O Autonómico</em>. Vila Franca do Campo, Ano XX, N° 955, 24 de Agosto de 1918, p. 2.</p>
<p>MENDONÇA, Padre António F. de – «Aparições».  <em>Ecos do Norte</em>. Ribeira Grande, Ano III, N° 951, 31 de Agosto de 1918, p.1.</p>
<p>«Em Água de Pau». <em>O Autonómico</em>. Vila Franca do Campo, Ano XX, N° 947, 29 de Junho de 1918, p. 2.</p>
<p>«Falecimentos». <em>Diário dos Açores.</em> Ponta Delgada, Ano 53, N° 10928, 8 de Outubro de 1928, p.2.</p>
<p>«Água de Pau. À volta de uma ermida». <em>Correio dos Açores</em>. Ponta Delgada, Ano X, N° 2621, 14 de Junho de 1929, p.2.</p>
<p>«Nova ermida em Água de Pau». <em>Diário dos Açores</em>. Ponta Delgada, Ano 5, N° 11124, 15 de Junho de 1929, p. 3.</p>
<p>«Nova ermida em Água de Pau». <em>Correio dos Açores</em>. Ponta Delgada, Ano X, N° 2623, 16 de Junho de 1929, p.2.</p>
<p>«Fora do tempo». <em>O Autonómico</em>. Vila Franca do Campo, Ano 91, N°1412, 22 de Junho de 1929, p.2.</p>
<p>« 28 anos depois &#8230; E o milagre deu-se&#8230; » <em>A Ilha</em>. Ponta Delgada, Ano VIII, N°757, 5 de Outubro de 1946, p. 3.</p>
<p>TORGAL, Luís Filipe -<em> As «aparições de Fátima». Imagens e representações (1917-39)</em>. 1ª ed. Lisboa: Temas e Debates, 2002. 241 p. ISBN 972-759-544-8.</p>
<p>VIEIRA, António I. – «Morreu a vidente de Água de Pau». <em>Os Açores. Revista Ilustrada</em>. Ponta Delgada, Ano II/2ª série: N°11, (Novembro de 1928), p.30.</p>
<hr size="1" /><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref1">[1]</a> Luís Filipe Torgal desenvolveu um minucioso trabalho de investigação histórica sobre as « aparições » de Fátima e que foi um ponto de apoio importante para esta minha investigação. Cf. TORGAL, Luís Filipe -<em> As «aparições de Fátima». Imagens e representações (1917-39)</em>. 1ª ed. Lisboa: Temas e Debates, 2002. 241 p. ISBN 972-759-544-8</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref2">[2]</a> Cf. AVLIS, J. – «Água de Pau. De como principiaram as aparições de Nossa Senhora em 1918, e de como ocorreram as aparições do milagre do Sol ao Papa Pio XII, cognominado o Papa de Fátima». <em>Diário dos Açores</em>. Ponta Delgada, Ano 97, N°26210, 08 de Setembro de 1966, p.1.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref3">[3]</a> Aquando de uma conversa realizada em 2002, em Água de Pau, com a senhora Maria do Carmo do Canto (1925-2010), residente em Água de Pau.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref4">[4]</a> JERÓNIMO, Gil Moniz &#8211; «Fenómenos, Lendas e Monte Santo». <em>Açores, Mistério Insondável</em>. 1ª ed. Ponta Delgada: EGA, 2002. p. 93.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref5">[5]</a> JERÓNIMO, Gil Moniz &#8211; «Fenómenos &#8230;»,  p. 93.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref6">[6]</a> « 28 anos depois &#8230; E o milagre deu-se&#8230; » <em>A Ilha</em>. Ponta Delgada, Ano VIII, N°757, 5 de Outubro de 1946, p. 3.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref7">[7]</a> japoneira é um arbusto de popularmente chamadas “rosas do Japão”, ou seja, camélias.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref8">[8]</a> AVLIS, J. &#8211; «Água de Pau. De como principiaram &#8230;», p. 1.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref9">[9]</a> AVLIS, J. &#8211; «Água de Pau. De como principiaram &#8230;», pp. 1, 3.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref10">[10]</a> A este propósito o <em>Diário dos Açores</em> relata: “Disse-lhes Nossa senhora  que (&#8230;) continuassem a rezar, pedindo a Nosso Senhor para que acabasse com a guerra. Recomendou-lhes também que dissessem aquilo mesmo a todo o povo da freguesia &#8230;”AVLIS, J. &#8211; «Água de Pau. De como principiaram &#8230;», p. 1.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref11">[11]</a> Cf. AVLIS, J. &#8211; «Água de Pau deseja preparar o caminho de acesso à ermida de Nossa senhora do Monte, para poder entrar na excursão das três ermidas». <em>Diário dos Açores</em>. Ponta Delgada, Ano 97, N°26194, 20 de Agosto de 1966, p. 3.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref12">[12]</a> JERÓNIMO, Gil Moniz – «Fenómenos &#8230;», p. 94.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref13">[13]</a> «Em Água de Pau». <em>O Autonómico</em>. Vila Franca do Campo, Ano XX, N° 947, 29 de Junho de 1918, p. 2.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref14">[14]</a> CARROÇA, António Rodrigues - «Um facto extraordinário». <em>O Autonómico</em>. Vila Franca do Campo, Ano XX, N° 949, 13 de Julho de 1918, p. 2.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref15">[15]</a> O jornal <em>O Autonómico</em> afirma­?se como jornal católico. É um dos mais acérrimos jornais açorianos no combate à I República.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref16">[16]</a> MEDEIROS, Leopoldo Brèe d’Almeida Tavares de – «O acontecimento de 5 de Julho em Água de Pau». <em>O Autonómico.</em> Vila Franca do Campo, Ano XX, N° 949, 13 de Julho de 1918, p. 2.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref17">[17]</a> MENDONÇA, Padre António F. de – «Aparições». <em>Ecos do Norte</em>. Ribeira Grande, Ano III, N° 951, 31 de Agosto de 1918, p.1. Em resposta a esta crítica, o articulista Leopoldo Brèe d’Almeida Tavares escreveu dois artigos no jornal <em>O Autonómico</em>. Cf. MEDEIROS, Leopoldo Brèe d’Almeida Tavares de – «O acontecimento de 5 de Julho em Água de Pau». <em>O Autonómico</em>. Vila Franca do Campo, Ano XX, N° 951, 27 de Julho de 1918, pp. 1-2.; MEDEIROS, Leopoldo Brèe d’Almeida Tavares de – «Voltando a campo». <em>O Autonómico</em>. Vila Franca do Campo, Ano XX, N° 955, 24 de Agosto de 1918, p. 2.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref18">[18]</a> MEDEIROS, Leopoldo Brèe d’Almeida Tavares de &#8211; «O acontecimento de 5 de Julho &#8230;»,  p. 2. Este excerto, assim como uma grande parte do artigo de Leopoldo é transcrito no artigo intitulado “Água de Pau deseja preparar o caminho de acesso à ermida de Nossa senhora do Monte, para poder entrar na excursão das três ermidas” do jornal <em>Diário dos Açores</em>. Cf. AVLIS, J. &#8211; «Água de Pau deseja preparar &#8230;» pp. 1, 3.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref19">[19]</a> JERÓNIMO, Gil Moniz – «Fenómenos &#8230;», p. 104.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref20">[20]</a> COSTA, J. – «Um pouco tarde … A propósito da ermida no Pico de Água de Pau». <em>Correio dos Açores</em>. Ponta Delgada, Ano X, N° 2633, 22 de Junho de 1929, p.1.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref21">[21]</a> Segundo o jornal <em>Diário dos Açores</em>, Maria Joana foi vítima de uma febre tifóide. Cf. – «Falecimentos». <em>Diário dos Açores.</em> Ponta Delgada, N° 10928, 8 de Outubro de 1928, p.2.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref22">[22]</a> O número 11 do mês de Novembro de 1928 da Revista <em>Os Açores</em> dedica uma página inteiramente consagrada à memória da “vidente”, recordando as visões da falecida jovem e o projecto da ermida. Cf. VIEIRA, António I. – «Morreu a vidente de Água de Pau». <em>Os Açores. Revista Ilustrada</em>. Ponta Delgada, Ano II/2ª série: N°11, (Novembro de 1928), p.30.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref23">[23]</a> “A clínica psiquiátrica, segundo dizem, é banal, não tem importância de maior; não há estudante dos últimos anos de medicina, que não saiba que as pitiacas, as histéricas, tem uma natural inclinação para a menomania, para alucinações místicas, visões de Nossa Senhora, etc (…) Mas a criança era de tanta tenra idade … Estaria no caso de Teresa? Não sabemos nem discutimos, apenas relatamos. (…) O que é facto é estar já autorizada pelo poder eclesiástico a construção de uma ermida no alto dessa montanha estando os trabalhos de terraplanagem bastante adiantados. (…) Sabemos que no próximo domingo, 16 do corrente, será lançada a primeira pedra com todo o cerimonial litúrgico (…)” – «Água de Pau. À volta de uma ermida». <em>Correio dos Açores</em>. Ponta Delgada, Ano X, N° 2621, 14 de Junho de 1929, p.2.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref24">[24]</a> – «Fora do tempo». <em>O Autonómico</em>. Vila Franca do Campo, Ano 91, N°1412, 22 de Junho de 1929, p.2.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref25">[25]</a> – «Nova ermida em Água de Pau». <em>Correio dos Açores</em>. Ponta Delgada, Ano X, N° 2623, 16 de Junho de 1929, p.2.  Cf. igualmente: – «Nova ermida em Água de Pau». <em>Diário dos Açores</em>. Ponta Delgada, Ano 5, N° 11124, 15 de Junho de 1929, p. 3.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref26">[26]</a> Esta afirmação foi recolhida aquando da nossa conversa com a Senhora Maria do Carmo. Cf. igualmente JERÓNIMO, Gil Moniz &#8211; «Fenómenos &#8230;», p. 125.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref27">[27]</a> MEDEIROS, Leopoldo Brèe d’Almeida Tavares de – «O acontecimento de 5 de Julho em Água de Pau». <em>O Autonómico</em>. Vila Franca do Campo, Ano XX, N° 951, 27 de Julho de 1918, p. 2.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref28">[28]</a> COSTA, J. – «A célebre ermida. Quatro desastres distintos numa declaração … não verdadeira». <em>Correio dos Açores</em>. Ponta Delgada, Ano X, N°2637, 5 de Julho de 1929, p. 2.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref29">[29]</a> COSTA, J. – «A célebre ermida &#8230;», p.1</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref30">[30]</a> Esta ermida com o nome de Nossa Senhora do Monte foi mandada edificar pelos pais da “vidente” &#8211; Teófilo Tavares do Canto e sua esposa, D. Isolina Adelaide Soares &#8211; que financiaram totalmente a  construção da mesma.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref31">[31]</a> COSTA, J. – «Um pouco tarde …», p.1.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref32">[32]</a> COSTA, J. – «Um pouco tarde …», p.1.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref33">[33]</a> COSTA, J. – «A célebre ermida &#8230;», p. 2. A própria prima da “vidente”, Maria do Carmo do Canto, afirmou igualmente a impossibilidade de construção da ermida no local onde ocorreram as aparições.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref34">[34]</a> A partir da investigação a que procedemos nos documentos oficiais da igreja paroquial de Nossa Senhora dos Anjos de Água de Pau, verificámos que a ermida de Nossa Senhora do Monte foi doada no dia 10 de Setembro de 1931, pela comissão construtora, à Corporação encarregada do Culto Católico da paróquia de Nossa Senhora dos Anjos.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref35">[35]</a> COSTA, J. – «A célebre ermida &#8230;», p.2. Cf. igualmente AVLIS, J. &#8211; «Água de Pau deseja preparar &#8230;», p. 3. Este artigo refere igualmente que após a obtenção da licença concedida pela diocese, foi lançada a primeira pedra no dia 16 de Julho de 1929 seguida da benção e missa campal no dito lugar.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref36">[36]</a> HALBWACHS, Maurice. &#8211; <em>La Mémoire Collective</em>. Paris : Albin Michel, 1997, pp. 104-105. « c&#8217;est l&#8217;image seule de l&#8217;espace qui, en raison de sa stabilité, nous donne l&#8217;illusion de ne point changer à travers le temps et de retrouver le passé dans le présent ; mais c&#8217;est bien ainsi qu&#8217;on peut définir la mémoire ; et l&#8217;espace seul est assez stable pour pouvoir durer sans vieillir ni perdre aucune de ses parties.»</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref37">[37]</a> Foram entrevistados 50 residentes de Água de Pau, de ambos os sexos, com idades compreendidas entre os 18 e os 85 anos. Nestas entrevistas, sob a forma de conversação, demos preferência às pessoas de mais idade, por ser mais fácil encontrar nessas pessoas as informações da tradição popular passada.</p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref38">[38]</a> Cf. TORGAL, Luís Filipe -<em> As «aparições de Fátima»</em> …, pp. 119-123<em>. </em></p>
<p><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/DOSSIER%20CARMEN%20PONTE/ARTICLES_2005_2016/2011/Artigo_CEIS20/artigo_cientifico_revista_vol11_Carmen_Ponte.docx#_ftnref39">[39]</a> Infelizmente, dadas as condições em que se encontra o arquivo da Diocese, não nos foi possível consultar o documento que teria sido redigido por cerca de duas dezenas de membros do clero a chamar a atenção ao Governador do bispado sobre o logro em que a Igreja podia cair se conferisse qualquer credibilidade aos acontecimentos, autorizando a construção da ermida.</p>
<div id="attachment_509" class="wp-caption alignnone" style="width: 310px"><a href="http://www.tradicoes-acorianas.com/wp-content/uploads/2015/02/P1050859bol.jpg" rel="lightbox[475]" title="O Pico de Água de Pau antes da construção da ermida "><img class="size-medium wp-image-509" title="O Pico de Água de Pau antes da construção da ermida " src="http://www.tradicoes-acorianas.com/wp-content/uploads/2015/02/P1050859bol-300x211.jpg" alt="" width="300" height="211" /></a><p class="wp-caption-text">O Pico de Água de Pau antes da construção da ermida </p></div>
<div id="attachment_510" class="wp-caption alignnone" style="width: 310px"><a href="http://www.tradicoes-acorianas.com/wp-content/uploads/2015/02/PICT0005.jpg" rel="lightbox[475]" title="O Pico de Água de Pau com a ermida de Nossa Senhora do Monte. "><img class="size-medium wp-image-510" title="O Pico de Água de Pau com a ermida de Nossa Senhora do Monte. " src="http://www.tradicoes-acorianas.com/wp-content/uploads/2015/02/PICT0005-300x106.jpg" alt="" width="300" height="106" /></a><p class="wp-caption-text">O Pico de Água de Pau com a ermida de Nossa Senhora do Monte. </p></div>
<div id="attachment_511" class="wp-caption alignnone" style="width: 310px"><a href="http://www.tradicoes-acorianas.com/wp-content/uploads/2015/02/7-Ermida-do-Monte-Santo.jpg" rel="lightbox[475]" title="Ermida de Nossa Senhora do Monte construída em 1931."><img class="size-medium wp-image-511" title="Ermida de Nossa Senhora do Monte construída em 1931." src="http://www.tradicoes-acorianas.com/wp-content/uploads/2015/02/7-Ermida-do-Monte-Santo-300x199.jpg" alt="" width="300" height="199" /></a><p class="wp-caption-text">Ermida de Nossa Senhora do Monte construída em 1931.</p></div>
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		<pubDate>Fri, 01 Mar 2013 16:32:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Ponte</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Os grupos das folias, nos Açores, são compostos por elementos do sexo masculino, de três a cinco, dependendo da ilha, trajando uma opa de chita vermelha e uma mitra na cabeça, sendo que nalguns casos usam um barrete ou ainda &#8230; <a href="http://www.tradicoes-acorianas.com/448/">Ler mais <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os grupos das folias, nos Açores, são compostos por elementos do sexo masculino, de três a cinco, dependendo da ilha, trajando uma opa de chita vermelha e uma mitra na cabeça, sendo que nalguns casos usam um barrete ou ainda um simples lenço amarrado na cabeça. Com a função de acompanhamento, são utilizados instrumentos de percussão, tais como o tambor, o pandeiro e, nalguns casos, os címbalos. Na ilha de S. Miguel, os foliões usam também a viola da terra, a rabeca e o acordeão.</p>
<p>Cantam num tom arrastado e monótono que varia de lugar para lugar. Sobre essas composições o escritor açoriano Carreiro da Costa, numa das suas palestras radiofónicas (08-06-73) intitulada “Alvoradas do Divino”, salienta que as cantigas cantadas pela folia “são composições de índole diversa, pois umas são líricas e profanas, outras religiosas, dedicadas a São João Baptista, à Virgem, à Sant’Ana e ao Espírito Santo, claro está.” Os seus cantares são assim conhecidos pela designação de alvoradas, possuindo características tradicionais e apresentando não só cânticos religiosos, como também profanos.</p>
<hr size="1" />Bibliografia:</p>
<p>COSTA, Francisco Carreiro da. “As folias do Senhor Espírito Santo”, in: <em>Palestras Radiofónicas Proferidas no Emissor Regional de Ponta Delgada</em>, F.C.C., S.D.U.A., texto manuscrito, [21-05-1948]; &nbsp;&raquo; Das folias e foliões do Espírito Santo”, in: <em>Palestras Radiofónicas Proferidas no Emissor Regional de Ponta Delgada</em>, F.C.C., S.D.U.A., texto manuscrito, [08-05-1970]; “Alvoradas do Divino”, in:<em>Palestras Radiofónicas Proferidas no Emissor Regional de Ponta Delgada</em>, F.C.C., S.D.U.A., texto manuscrito, [08-06-1973]</p>
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		<title>Estrutura e características gerais</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Mar 2013 10:56:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Ponte</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A estrutura genérica das festas do Espírito Santo compreende as “Domingas” que têm lugar ao longo de cada uma destas sete semanas, e o Império, que se realiza no domingo de Pentecostes ou da Trindade. Na base tanto das Domingas &#8230; <a href="http://www.tradicoes-acorianas.com/estrutura-e-caracteristicas-gerais/">Ler mais <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A estrutura genérica das festas do Espírito Santo compreende as “Domingas” que têm lugar ao longo de cada uma destas sete semanas, e o Império, que se realiza no domingo de Pentecostes ou da Trindade. Na base tanto das Domingas como dos Impérios encontra-se uma irmandade conhecida também por confraria, espécie de associação formada por irmãos que todos os anos sorteiam os cargos de mordomos para o ano seguinte. Os mordomos das seis primeiras Domingas, têm o dever de realizarem a sua respectiva coroação ornamentando o melhor quarto da casa que irá receber a coroa e a bandeira do Espírito Santo. Este quarto denominado “quarto do Espírito Santo” é composto por uma decoração de flores naturais e artificiais, verduras, toalhas brancas e sobretudo um altar onde a Coroa é posta no topo com o ceptro. O quarto é iluminado com velas e luzes dando-lhe assim um importante carácter lúdico. É neste quarto que se reza o terço todos os dias à noite e se canta em louvor do Espírito Santo. Após esse cerimonial religioso, sucedem-se as conversas, jogos, brincadeiras e canções de temática profana, muitas delas entoadas pela folia, entidade esta de extrema importância nesta festa e que apresentaremos mais adiante. É de salientar que as Domingas caracterizam-se por uma estrutura particularmente simples, marcada pela ausência de prestações alimentares significativas. Actualmente e após a reza do terço, o mordomo oferece doces e bebidas aos presentes. Para além desses ritos e festejos de características religiosas, destaca-se também a Coroação, cortejo solene em que são conduzidas a Coroa, a Bandeira, a Salva e o Ceptro<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/coloque%20octobre%20crla/ARTIGO/Artigo_saberes_sabores_Carmen_Ponte.doc#_ftn1">[1]</a> do Espírito Santo até à Igreja, onde no termo da missa o imperador ou imperatriz (geralmente uma criança) é coroado pelo padre. Trata-se de uma procissão em que cada personagem assume um papel importante, como é o caso, por exemplo, do “alferes da bandeira” que tem a função principal de levar a bandeira na coroação, ou o “Védor” também conhecido por “pagem da coroa” que é aquele que conduz a coroa para a igreja e que se encarrega do ritual cerimonial de a tirar ou pôr na cabeça do imperador, dando-lhe a beijar o ceptro. No fim da respectiva coroação, o mordomo oferece um lanche informal em sua casa às pessoas que o acompanharam no decurso deste acto processional. Todavia, é na sétima Dominga que a festa do Espírito Santo atinge o seu auge, altura em que o mordomo ou imperador tem a seu cargo, não só a coroação, mas também a organização da despensa, a distribuição das pensões, a função na igreja e o próprio império. O dia do Império que corresponde ao domingo de Pentecostes ou da Trindade, é o ponto culminante dos festejos.</p>
<hr size="1" /><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/coloque%20octobre%20crla/ARTIGO/Artigo_saberes_sabores_Carmen_Ponte.doc#_ftnref1">[1]</a> Na ilha de São Miguel, o Ceptro tem a denominação de “Espadim”.</p>
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		<title>Origem e tempo</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Mar 2013 10:42:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmen Ponte</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A origem destas festas é geralmente situada no século XIV em Alenquer e atribuída à Rainha Santa Isabel. Elas difundiram-se amplamente no continente e irradiaram-se para territórios povoados e colonizados pelos portugueses, como é o caso dos Açores. Com base &#8230; <a href="http://www.tradicoes-acorianas.com/435/">Ler mais <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A origem destas festas é geralmente situada no século XIV em Alenquer e atribuída à Rainha Santa Isabel. Elas difundiram-se amplamente no continente e irradiaram-se para territórios povoados e colonizados pelos portugueses, como é o caso dos Açores. Com base nos estudos feitos sobre esta festividade nos Açores, ela parece remontar aos tempos iniciais do povoamento deste arquipélago (século XV).<a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/coloque%20octobre%20crla/ARTIGO/Artigo_saberes_sabores_Carmen_Ponte.doc#_ftn1">[1]</a> O período consagrado à realização das festas do Espírito Santo, conhecidas também por “Impérios”, estende-se ao longo das sete semanas que medeiam entre o domingo da Páscoa e o domingo da Trindade.</p>
<hr size="1" /><a href="file:///C:/Users/Carmen/Desktop/coloque%20octobre%20crla/ARTIGO/Artigo_saberes_sabores_Carmen_Ponte.doc#_ftnref1">[1]</a> Cf. João Leal, <em>As Festas do espírito Santo nos Açores : um estudo de antropologia social</em>, Lisboa: Dom Quixote, 1994, 319 p.</p>
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			<content:encoded><![CDATA[<h4><a href="#fenomeno">Fenómeno</a></h4>
<p>jhy</p>
<p>hgjhgjhgAinda nesta perspectiva e relativamente ao debate da problemática entre os conceitos de tradição-inovação e identidade, é de salientar que tem-se assistido, nos últimos anos e um pouco por todo o lado, a um</p>
<p><a name="fenomeno"></a>fenómeno cultural que releva interesse em estudá-lo e comprendê-lo : o da criação, recriação, reutilização e até mesmo ao que podemos chamar de apropriação de tradições.</p>
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		<pubDate>Mon, 29 Nov 2010 14:51:30 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Ainda nesta perspectiva e relativamente ao debate da problemática entre os conceitos de tradição-inovação e identidade, é de salientar que tem-se assistido, nos últimos anos e um pouco por todo o lado, a um fenómeno cultural que releva interesse em &#8230; <a href="http://www.tradicoes-acorianas.com/normas/">Ler mais <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ainda nesta perspectiva e relativamente ao debate da problemática entre os conceitos de tradição-inovação e identidade, é de salientar que tem-se assistido, nos últimos anos e um pouco por todo o lado, a um fenómeno cultural que releva interesse em estudá-lo e comprendê-lo : o da criação, recriação, reutilização e até mesmo ao que podemos chamar de apropriação de tradições.</p>
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